segunda-feira, 1 de novembro de 2010

RELAÇÃO ENTRE CRIATIVIDADE E SAÚDE NA GESTALT TERAPIA

A afinidade da Gestalt terapia com as artes existe desde o seu começo

Frederick Perls trabalhou em teatro, teve aulas de pintura, e muitas vezes

utilizava recursos de expressão artística em seus trabalhos. Laura Perls estudou

dança e Paul Goodman era poeta e escritor.

A relação da Gestalt terapia com criatividade se inicia em suas raízes na

concepção existencial de ser humano na qual o ser humano é visto como

estando sempre num possível estado de refazer-se, de poder escolher e

organizar sua existência criativamente. A visão existencial afirma a capacidade

humana

condicionamentos. Esta postura, no entanto, não implica em que se ignore que

existam pressões, violências, condicionamentos, limites externos e pessoais, mas

entende que a possibilidade de escolha, de lidar criativamente com estes limites

é sempre existente. Victor E. Frankl (1959), psiquiatra que passou parte da

segunda guerra em um campo de concentração nazista, ao escrever sobre suas

experiências no campo, afirma que mesmo sob condições horríveis e

absolutamente desumanas como aquelas, existia a possibilidade de uma escolha

no como se posicionar internamente diante daquela situação.

Podemos dizer que quanto maior for a awareness de uma situação, maior

a possibilidade de que o ser humano possa ser realmente sujeito de sua história

ou, colocado em termos mais poéticos, artista de si mesmo , artista de sua própria

existência. É claro que neste processo, vários fatores que advêm do ser o

indivíduo um ser social (fatores históricos, sociais, políticos, econômicos,

familiares etc), vão se manifestar e ter influência no curso e forma de nossas

existências, mas o que a postura existencial afirma é que o indivíduo não pode ser

de

escolher

seu

próprio

destino,

de

transcender

visto apenas como “produto” do meio, pois com ele pode sempre interagir de

forma criativa, inusitada e transformadora .

A relação da Gestalt terapia com criatividade se estende também à

concepção gestáltica de funcionamento saudável, que em todos os escritos

básicos da abordagem, é equacionada à funcionamento criativo.

Na Gestalt terapia, o indivíduo é visto como um ser relacional, um ser em

processo de devir, em constante troca criativa com o meio.

Desejos e necessidades do indivíduo assumem dominâncias, que são o

movimento de uma tensão interna de se destacar proeminentemente formando

uma figura, i.e., uma gestalt, que vai mobilizar a energia do organismo para sua

completude. Quando estes processos requerem recursos do meio para sua

realização, estas figuras despontam na consciência mobilizando as funções de

contato do indivíduo, que são seu instrumental para ir ao encontro, sentir, avaliar e

selecionar o que se encontra a sua volta. O indivíduo organiza estas experiências

de forma que orientem o tipo de contato que estabelece. Todo contato é

potencialmente criativo, pois lida com o novo. Se estou na praia querendo nadar, o

fato de já ter nadado antes me dá suporte para que eu entre no mar, me lance nas

ondas e vá para longe da beira-mar, para onde as águas são mais fundas e “não-

dá-pé”, mas o mar que está diante de mim é sempre novo e inesperado .

O indivíduo então, através dos múltiplos e variados contatos que vivência,

cresce e se desenvolve, idealmente assimilando o que o enriquece e nutre e

alienando de si o que lhe é tóxico, respondendo às requisições, exigências e

convites do meio num contínuo processo de ajustamento criativo. Ajustamento

criativo e contato são conceitos chaves na Gestalt terapia, pois implicam não

apenas em “ajustamento”, mas em “ajustamento criativo” e não só em “contato”,

mas em “contato criativo”.


Como uma planta que cresce assimilando do solo e do ar nutrientes que

lhe ajudarão a crescer, ao mesmo tempo em que cria e desenvolve mecanismos

para se proteger de elementos que possam ameaçar sua existência, filtrando

poluentes, desenvolvendo raízes fortes, fechando-se ao contato com elementos

potencialmente agressivos, criando formas inusitadas para receber o sol ou

proteger-se das intempéries .


Da mesma forma crianças escolhem estar perto de pessoas e ambientes

que lhes são estimulantes e as ajudam a crescer saudavelmente, retraindo-se na

medida

potencialidades e habilidades para responder aos convites e/ou requisições das

pessoas e do meio que as circundam de forma criativa.

Evidentemente que os processos de ajustamento criativo nem sempre

levam a processos de crescimento saudáveis.

Às vezes as pressões e cargas

negativas do meio são tão fortes que a pessoa desenvolve defesas que terminam

por limitá-la em sua existência. Estas defesas, no entanto devem ser vistas como

a melhor resposta que a pessoa pôde criar no momento e situação específica em

que se encontrava. A limitação em questão não reside no tipo de defesas criadas,

mas no fato de que freqüentemente o indivíduo automaticamente as perpetua,

sem dar-se conta que delas não mais necessita, ou que conta hoje com outros

recursos que os de então para proteger-se (ou, com a possibilidade de criá-los).


Na medida, portanto que estas dominâncias vão surgindo, figuras vão se

formando na consciência, e quando bem resolvidas vão dando lugar à emergência

de novas figuras num processo contínuo e vital de formação de figura - fundo.



O que vai facilitar a resolução e emergência de novas figuras no campo

perceptual são os processos de awareness, que vão ajudar a que estas figuras se

definam com nitidez e clareza de forma energetizada em relação ao fundo - a

configuração presente da existência do indivíduo.

Awareness não se dá somente no nível cognitivo, mas também nos níveis

sensório-motor, emocional e energético, e é por isto que em Gestalt terapia se fala

em “awareness organísmica”. É nos processos de awareness que o indivíduo

do

possível

de

pessoas

e

ambientes

tóxicos,

aguça e percebe tanto os seus sentidos, como as relações de significado que

estabelece entre eles (o “sentido” que advém da percepção dos sentidos); que

tanto experiência como percebe a forma como organiza suas experiências; que

tanto configura como reorganiza suas experiências, e é por isto que processos

contínuos de awareness são sempre acompanhados de novas “in-formações”, i.

e., a formação de “figuras” na percepção, que criam um novo saber. A este tipo de

awareness se dá em Gestalt terapia o nome de “awareness criativa”.

Funcionamento saudável vai ser então o fluxo contínuo e energizado de

awareness e formação perceptual de figura-fundo, onde através de fronteiras

permeáveis e flexíveis o indivíduo interage criativamente com seu meio ambiente,

desenvolvendo recursos novos para responder às dominâncias que se lhe

afigurem

apropriadamente estabelecer contatos enriquecedores e interrompê-los quando

tóxicos e intoleráveis. Saúde seria a prevalência e relativa constância deste tipo de

funcionamento.

Em contrapartida, funcionamento não saudável vai ser o funcionamento

caracterizado por interrupções, inibições e obstruções destes processos, com a

conseqüente formação de figuras fracas, desvitalizadas, mal definidas, nebulosas

(como se estivéssemos usando um óculos de grau errado), confusas à percepção,

que ao não se completarem vão dificultando progressivamente as possibilidades

de contatos criativos, vitalizados e vitalizantes com o presente.

Doença ou patologia seria então a recorrência crônica deste tipo de

funcionamento, com a conseqüente cristalização das dificuldades do indivíduo e

empobrecimento de seus contatos com o mundo. Do que isto decorre?

Às vezes as figuras de nossas necessidades (físicas, emocionais,

espirituais, etc) não se configuram claramente e não são satisfatoriamente

completas. A qualidade do contato da pessoa com sua interioridade, com os

outros e a situação presente é pobre.

e

usando

suas

funções

de

contato

para

poder

O cliente que nos procura vem muitas vezes sentindo-se angustiado,

ansioso, com uma sensação de vazio e falta de graça em sua vida, mas muitas

vezes não tem realmente contato com o que lhe faz sentir-se assim. Ou se tem,

não consegue mobilizar-se para agir de forma a atender à suas necessidades.

Por exemplo, a pessoa pode sentir-se solitária, mas não conseguir ir em busca de

um contato humano que lhe seja acalentador .

Quando isto acontece, a energia está provavelmente presa em situações

inacabadas do passado, que são experiências antigas que ficam como formas

fixas no presente, obstruindo o fluxo livre e criativo de percepção e resposta à

situações novas , impingindo uma avaliação arcaica às situações atuais. Como se

o indivíduo usasse um óculos que colorisse qualquer perspectiva presente ou

futura com as cores das experiências passadas. Assim, no exemplo da pessoa

solitária acima citada, experiências passadas doídas, negativas e frustrantes,

podem estar revestindo de desesperança a perspectiva de qualquer movimento

em busca de um outro.

Da mesma forma, defesas criativamente elaboradas no passado em

resposta à avaliações acuradas de situações vividas, ao se repetirem

automaticamente colocam a pessoa em permanente estado de prontidão,

obstruindo o fluxo do sentir e impedindo a pessoa de vivenciar situações novas

que poderiam ser nutritivas e enriquecedoras .

Estas situações passadas freqüentemente estão parcial ou inteiramente

fora do campo de awareness. São gestalts ocultas. A pessoa se relaciona com os

outros sem vitalidade, a energia não está lá, mas bloqueada em situações

passadas mal resolvidas, e por isso chamadas de inacabadas.

Quando a figura é opaca, confusa, sem graça,
desenergetizada (uma gestalt fraca) , algo está sendo
bloqueado, alguma necessidade orgânica vital não está sendo
expressa ; a pessoa não está ali inteira...( Perls, Hefferline &
Goodman, 1951,pp231-232).

A terapia vem então para ajudar a

awareness, liberar a energia retida em situações antigas e inacabadas, trazendo-a

para o aqui-e-agora, facilitando assim, através do suporte da relação terapêutica,

a elaboração interna daquilo que antes não pode ser bem elaborado, novas

experiências, e a compreensão e eventual transformação dos padrões de

relacionamento do indivíduo consigo próprio, com os outros e com o mundo.

Neste aspecto configura-se uma outra instância em que situa-se a

criatividade na Gestalt terapia , ou seja, naquilo que se refere à sua prática e

metodologia. A Gestalt terapia caracteriza-se por excelência por ser uma terapia

que permite ao terapeuta inventar e/ou utilizar-se com liberdade e criatividade de

técnicas e experimentos provindos de diversas origens, desde que não se perca

de vista os princípios epistêmicos fenomenológicos que caracterizam a

abordagem gestáltica, os objetivos terapêuticos acima delineados, e a visão

gestáltica de processo humano, o que inclui a compreensão de como se dão

processos e distúrbios de contato, percepção e awareness.

Se Fritz Perls tornou certas técnicas populares, o terapeuta gestáltico não

necessita obrigatoriamente utilizá-las, nem tão-pouco restringir-se a elas. Assim

o terapeuta gestáltico pode trabalhar com os experimentos de contato e

awareness que se fizeram conhecidos nos trabalhos de Fritz Perls e outros

gestaltistas da

visualizações, fantasias, mitos, contos, dramatizações, exercícios de relaxamento

e sensibilização corporal, atividades expressivas tais como dança, desenho,

modelagem, poesia, experimentos de dinâmica grupal, de meditação, etc, ou com

nada disto.

apregoado, não se caracteriza por técnicas específicas, mas sim por sua postura

na relação terapêutica, por sua postura na eventual utilização de técnicas e

experimentos, e na sua compreensão dos objetivos do trabalho terapêutico.

Assim, a relação da Gestalt terapia com criatividade se dá em três instâncias: na

expandir o fluxo de energia e

época, ou inventar

outros. Pode

trabalhar com sonhos,

Realmente a Gestalt terapia, ao contrário do popularmente

sua concepção existencial de ser humano, na sua concepção de saúde e

funcionamento saudável, e na sua metodologia.

Finalmente, gostaria de concluir dizendo que como Gestalt terapeuta

tenho por “profissão de fé”, a crença profunda que a função da terapia é sobretudo

, a de ajudar o indivíduo a poder instalar ou restaurar um fluxo de interação

criativa com o mundo , ampliando assim, nas palavras de Ostrower (1977) , sua

abertura para a vida.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Ciornai,S. (1989). Em que acreditamos ? Mesa Redonda, II Congresso de

Gestalt Terapia , Caxambú, RJ. Publicada em 1991 no Gestalt Terapia Jornal nº

1, publicação do Centro de Estudos De Gestalt Terapia do Paraná.

Ciornai , S.(1991). Gestalt terapia hoje : Resgate e expansão. Revista de

Gestalt ,Nº 1, publicação do Departamento de Gestalt Terapia do Instituto Sedes

Sapientiae, São Paulo .

Ciornai,S. (1994). Arte terapia gestáltica: Um caminho para expansão de

consciência .Revista de Gestalt ,Nº 3, publicação do Departamento de Gestalt

Terapia do Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo.

Frankl ,V.E. (1963) . Man’s search for meaning : An introduction to

logotherapy . Washington Square Press : New York.

Ostrower, F.(1977) . Criatividade e processos de criação . Editora Vozes :

Petrópolis.

.Perls,F., Hefferline,H .& Goodman, P.(1951) .Gestalt therapy: Excitement

and growth in human personality. New York : Dell Pub. Co.

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