segunda-feira, 1 de novembro de 2010

3.2 – TEORIA DA INIBIÇÃO REPRIMIDA: FIGURA E FUNDO DA

NEUROSE

Ainda que discordassem da metapsicologia freudiana da neurose, especificamente da

tese, segundo a qual, a neurose é o efeito advindo do retorno de um excitamento (ou pulsão)recalcado por um ato de censura, Perls, Hefferline e Goodman não descartam integralmente a teoria da repressão (entendida como recalcamento). Entrementes, se para Freud o reprimido

(recalcado) é tão somente um excitamento, para Perls, Hefferline e Goodman, a repressão

recai sobre os atos inibitórios.

Ora, o que Perls, Hefferline e Goodman entendem por inibição?

O que eles entendem por repressão (como recalcamento) de um ato inibitório?

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3.2.1 – A inibição deliberada

Conforme a apresentação fenomenológica da orientação temporal implícita ao

processo de contato, há que se distinguir uma determinada “seqüência” de figuras e fundos6

característicos dos ajustamentos criativos. São eles:

1) Pré-contato – no qual o corpo é o fundo, e o seu desejo ou algum estímulo
ambiental é a figura; (...) 2) Processo de contato – aceito o dado e se alimentando de
suas faculdades, o self em seguida se aproxima, avalia, manipula, etc. um conjunto de
possibilidades objetivas: é ativo e deliberado com relação tanto ao corpo quanto ao
ambiente; estas são as funções de ego; 3) Contato final – um ponto eqüidistante das
extremidades, espontâneo e desapaixonado de interesse para com a figura realizada;
4) Pós-contato – o self diminui. (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p.
232).

Esse processo, entrementes, pode ser interrompido em qualquer uma de suas orientações. No

caso do qual nos ocupamos – e que tem a ver com a futura configuração de um ajustamento

neurótico -, a interrupção diz respeito ao surgimento de um dado (ou estímulo) que representa

“perigo” ou “frustração inevitável” para alguns dentre os excitamentos espontâneos

requisitados ou envolvidos no processo de contato. Por exemplo: ao enfrentar (como dado ou

estímulo) a proibição imposta por sua mãe, o menino não lida apenas com seu desejo

(excitamento espontâneo 1) de jogar futebol. Ainda que ele possa deliberar desobedecer à

coibição materna, ele precisa lidar com o risco de perder o afeto dessa mulher (excitamento

espontâneo 2). Razão pela qual, não é de todo estranho que ele (na função de ego) se delibere

“inibir” o excitamento espontâneo que aponta na direção do campo de futebol. Trata-se aqui

de uma inibição funcional, decorrente de uma decisão voluntária em favor de um dentre os

excitamentos espontâneos rivais envolvidos no enfrentamento da negativa da mãe. A

excitação espontânea não realizada, a pulsão implicada no “querer” jogar futebol, permanece

no fundo (como situação inacabada)7, até que o meio apresente um estímulo capaz de retomá-

6

Conforme nos mostra Granzotto (2005, pp. 41-43 e p. 114), é a partir do diagrama de Husserl que Edgar Rubin
(1915), fenomenólogo discípulo de Husserl, introduziu as categorias figura e fundo para designar,
respectivamente: i) os dados materiais percebidos e ii) os horizontes de futuro e passado co-presentes a partir
dos quais aqueles dados são percebidos. Rubin se propunha estudar a percepção espacial dos objetos e
reconheceu, na dinâmica temporal descrita por Husserl, a gestalt ou modo específico de formação do campo
visual. Perls, Hefferline e Goodman, a sua vez, empregam os termos em sentido mais amplo, designando com
eles a forma como Husserl pensava a dinâmica do a priori de correlação.

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A noção de situação inacabada guarda uma equivalência com aquilo que Freud chamava de situação pré-
consciente. Não é um traço mnemônico inacessível e que resta como pulsão constante (pulsão de morte),
tampouco algo recalcado, esquecido e, por conseguinte, persistente como um inconsciente sistemático, um
sujeito inconsciente. Para essas duas formulações freudianas, os fundadores da Gestalt-terapia propõem,
respectivamente, as noções de função id (fundo de co-dados retidos) e inibição reprimida (que caracterizaremos
logo a seguir).

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la, ainda que isso implique uma espera de anos... A excitação não realizada, entretanto, não é

como para Freud o representante de uma pulsão separada de sua realização afetiva; menos

ainda, aquela excitação inacabada não é um representante esquecido e que, por meio de

ardilosas modificações, retornaria de maneira conflituosa, desencadeando sintomas

neuróticos. Como já mencionamos acima, para os fundadores da Gestalt-terapia, a excitação

não acabada não é o elemento desencadeador da neurose. Tampouco o é a inibição tal como o

menino a deliberou. Para que um quadro – que exija ajustamentos neuróticos – se estabeleça,

é preciso esperar por algo a maior, precisamente, a repressão (recalcamento) da inibição

deliberada.

3.2.2 – A primeira etapa da repressão: a formação do hábito

O que é exatamente essa repressão? Suponhamos que o menino, agora adolescente,

mesmo não se vendo forçado a fazê-lo, continuasse abrindo mão de seus excitamentos

espontâneos mais “emergentes” – que são aqueles em que se pode verificar muita intensidade

de participação nas relações de campo8. Mesmo não havendo um conflito entre aqueles

excitamentos e outros menos emergentes, o agora adolescente continuaria se privando de

atuar em favor de suas necessidades mais importantes. A inibição, antes deliberada, tornou-se

crônica. O que se passou? Qual o motivo para o retorno dessa postura da infância, já que o

meio não apresentava obstáculos aos excitamentos do jovem?

Acontece que as inibições, antes deliberadas, agora foram assimiladas como formas

esquecidas, o que lhes facultou atuarem anonimamente. Tal é possível porque, assim como os

excitamentos espontâneos já realizados (cuja tensão material fora destruída em favor de uma

nova configuração material na fronteira de contato), as inibições também podem ter suas

tensões materiais destruídas. Nesse particular, é preciso distinguir os excitamentos

espontâneos assimilados dos não assimilados: enquanto os primeiros perdem sua tensão

material para restar no fundo como formas esquecidas, desprovidas de meta específica junto

aos dados materiais na fronteira de contato; os excitamentos espontâneos não assimilados

(também denominados de “situações inacabadas”) conservam uma tensão material e, por

conseguinte, uma meta específica, por cujo meio haveriam de se descarregar. Ora, as

inibições, uma vez deliberadas, descarregam suas tensões materiais e restam apenas como

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“Intensidade de participação nas relações de campo” é a maneira como Perls, Hefferline e Goodman redefinem
a noção freudiana de libido.

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formas sem meta na realidade material. Nesse sentido, dizem Perls, Hefferline e Goodman

(1951, p. 234)

A excitação [que permanece como situação inacabada] não pode ser esquecida, mas o
controle deliberado pode ser esquecido e permanecer inconsciente. Isto ocorre
simplesmente porque, sendo um padrão motor, depois de algum tempo a situação é
aprendida [como hábito];

O que significa dizer: também as inibições podem ser assimiladas como formas puras,

desprovidas de conteúdos (tensões materiais) que as fizessem “escolher” apenas os dados

materiais que as pudessem descarregar. Dessa feita, as inibições se transformam em hábitos:

fundo de formas não específicas, desprovidas de finalidade, e que assim podem se agregar a

quaisquer novos dados na fronteira de contato, gerando, por conseqüência, novas inibições de

excitamentos espontâneos (novas situações inacabadas). Diante dos novos dados na fronteira

de contato, nosso jovem continuaria operando a partir desse hábito inibitório assimilado,

como se devesse continuar inibindo algo que, entretanto, não está mais na atualidade. Em

verdade, ele se mantém ocupado com um passado que, habitualmente, insiste em inibir e os

novos dados não são mais que semblantes desse passado, razão pela qual também não são

realizados, não são assimilados. Merleau-Ponty, ao descrever a formação do recalque, diz

algo que vai ao encontro do emprego que os fundadores da Gestalt-terapia dão à noção de

hábito e sua importância para a compreensão do fenômeno da inibição reprimida. Diz

Merleau-Ponty:

O tempo que passa não leva consigo os objetos impossíveis, não se fecha sobre a
experiência traumática, o sujeito permanece sempre aberto ao mesmo futuro
impossível, senão em seus pensamentos explícitos, pelo menos em seu ser efetivo.
Um presente entre todos os presentes adquire então um valor de exceção: ele desloca
os outros e os destitui de seu valor de presentes autênticos. Continuamos a ser aquele
que um dia se empenhou nesse amor de adolescente, ou aquele que um dia viveu
nesse universo parental. Percepções novas substituem as percepções antigas, e mesmo
emoções novas substituem as de outrora, mas essa renovação só diz respeito ao
conteúdo de nossa experiência e não à sua estrutura; o tempo impessoal continua a se
escoar, mas o tempo pessoal está preso. Evidentemente, essa fixação não se confunde
com uma recordação, ela até mesmo exclui a recordação enquanto esta expõe uma
experiência antiga como um quadro diante de nós e enquanto, ao contrário, este
passado que permanece nosso verdadeiro presente não se distancia de nós e esconde-
se sempre atrás de nosso olhar em lugar de dispor-se diante dele. A experiência
traumática não subsiste a título de representação, no modo da consciência objetiva e
como um momento que tem sua data; é-lhe essencial sobreviver como um estilo de
ser e em um certo grau de generalidade (1945, p. 123-4).

Assim como para Perls, Hefferline e Goodman, para Merleau-Ponty, o recalcado não diz

respeito a um conteúdo, de uma representação específica, mas a uma forma típica, a um estilo

genérico de ser. Trata-se da permanência de uma forma como tantas outras aprendidas no

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fluxo corrente da existência. Ora, para Perls, Hefferline e Goodman, a retenção do ato

inibitório como fundo habitual também é simplesmente um “processo costumeiro de aprender

e esquecer como aprendemos” (1951, p. 234). De todo modo, aqueles autores localizam aqui,

nessa passagem da inibição atual para o esquecimento (como hábito), a primeira etapa da

constituição da repressão. Nela, “não há nada de extraordinário a respeito da transição da

supressão consciente para a repressão” (1951, p. 234).

Todavia, continuam aqueles autores, as inibições habituais têm uma peculiaridade.

Não obstante estarem desprovidas de tensões materiais próprias, elas continuam associadas às

tensões provenientes dos excitamentos espontâneos não assimilados (situações inacabadas),

que elas próprias bloquearam. Desse ponto de vista, elas continuam sofrendo com a pressão

exercida pelo excitamento espontâneo não realizado. Perls, Hefferline e Goodman

denominam tal pressão de ansiedade. Aliás, para os fundadores da Gestalt-terapia, “(a)

ansiedade é a interrupção do excitamento criativo” (1951, p. 249). Ela é a própria

“impossibilidade” de expansão do excitamento espontâneo que resta no fundo como situação

inacabada. Nesse sentido, a ansiedade é aquele excitamento, mas enquanto ele se apresenta

como algo “inibido”. Trata-se de um “menos” de energia (entendendo-se por energia o grau

de participação de um co-dado nas relações de campo abertas pelo dado na fronteira de

contato). Ou, então, trata-se de uma energia “espetacularmente disruptiva (sic)”, descrita pelos

autores nos seguintes termos (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 214):

(...) suponha que o excitamento foi interrompido. Prestemos atenção à respiração mais
intensa que é um fator em todos os excitamentos: o excitamento é interrompido, a
respiração está contida. Isto é a ansiedade (...). A ansiedade, o excitamento que foi de
modo repentino represado muscularmente, continua a vibrar por muito tempo, até que
possamos respirar livremente de novo.

Merleau-Ponty, a sua vez, refere-se a energia específica do recalque denominando-a de

angústia:

Eu alieno meu poder perpétuo de me dar “mundos” em benefício de um deles, e por
isso mesmo esse mundo privilegiado perde sua substância e termina por ser apenas
uma certa angústia (1945, p. 124).

De toda sorte, é por conta da presença dessa energia (que é a ansiedade ou excitamento

inibido) que os autores podem descrever os hábitos inibitórios simultaneamente como: i)

formas esquecidas (sem tensão material própria, o que explica o fato de poderem se repetir

junto aos novos dados na fronteira de contato); e ii) formas acometidas de um estado de

tensão, de ansiedade, que é a presença do excitamento que elas mesmas inibem. Enquanto

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formas investidas de ansiedade, os hábitos inibitórios são descritos como “estados corporais

tensos”, desligados das funções de ego.

3.2.3 – A segunda etapa da repressão: a formação reativa

Suponhamos, agora, que algum dado na fronteira de contato ofereça, senão ao

excitamento originalmente inibido, ao menos para algum outro que sofreu a intervenção do

hábito inibitório, a ocasião de realização. Tal possibilidade, caso viesse a se concretizar,

implicaria a diluição de uma tensão, a destruição de pelo menos uma situação inacabada na

vida do jovem. Mas, para que isso acontecesse, o excitamento inibido deveria trespassar o

hábito inibitório. Teria de atravessá-lo. E eis que, para se livrar deste estado ansiogênico

amplificado (que é a própria intensificação do excitamento inibido), a inibição reagiria, não

contra o excitamento ele próprio, mas contra o sistema self, especificamente contra seu novo

dado na fronteira de contato (porquanto é ele quem potencializa o excitamento inibido).

Alcançamos aqui a etapa ulterior da formação da repressão, a transformação do hábito

inibitório em uma força de reação, à qual Perls, Hefferline e Goodman denominaram de

“formação reativa” (ao dado na fronteira de contato).

A formação reativa é a evitação da ansiedade prenunciada pela interrupção da
repressão (pelo aumento da excitação inibida ou do relaxamento da inibição) por meio
de tentativas ulteriores de aniquilar a excitação ou os impulsos que levam a ela, e pelo
fortalecimento da inibição. (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 246)

Quando o dado implica o incremento da awareness sobre o excitamento inibido (e

conseqüente aumento da ansiedade), as formações reativas estabelecem: “a evitação, o nojo, a

provocação, o esnobismo, a condenação moral” (Perls, Hefferline e Goodman, 1951, p. 246).

Mas se o dado ameaça diretamente a inibição, verificamos formações como: “honradez,

teimosia, estupidez obstinada, orgulho” (PERLS, HEFFERLINE E GOODMAN, 1951, p.

246). De um modo geral, enfim, “a formação reativa é a resposta-emergência à ameaça contra

o corpo: é a categoria de respostas do tipo fingir de morto, o estado de choque, a fuga em

pânico etc.” (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 251, nota 2). Por meio dessa

resposta-emergência, a inibição reprimida atenua o estado de ansiedade intolerável em que foi

jogada. Não apenas isso, por meio daquela, a inibição habitual continua reprimida, o que quer

dizer, esquecida.

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3.2.4 – Definição de repressão (recalcamento)

Para Perls, Hefferline e Goodman, enfim, a repressão consiste no processo de

transformação de um hábito esquecido em uma força de reação. Trata-se, nesse sentido, do

processo de constituição de uma função “inconsciente”9, de uma “fisiologia secundária”, que

acontece à revelia das ações que o ego pode operativamente deliberar a partir dos hábitos e

excitamentos espontâneos disponíveis. “As faculdades motoras e perceptivas comprometidas

na inibição deixam de ser funções de ego e tornam-se simplesmente estados corporais tensos.”

(1951, p. 234). De onde se segue, finalmente, uma definição de repressão, que os autores

apresentam nos seguintes termos (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 235):

(e)stamos, desse modo, elaborando a seguinte teoria da repressão: a repressão é o
processo de esquecimento da inibição deliberada que se tornou habitual. O hábito
esquecido deixa de ser acessível devido a formações reativas adicionais voltadas
contra o self.

Percebamos mais uma vez que, diferentemente de Freud, para Perls, Hefferline e Goodman, é

o hábito inibitório e não o excitamento inibido aquilo que está reprimido de forma constante,

aquilo que está efetivamente recalcado. Se um desejo antigo assume uma feição desagradável,

isso não é decorrência de uma modificação no próprio desejo, mas da presença recalcitrante

de uma inibição que se estabelece à revelia do ego. Nas palavras de Perls, Hefferline e

Goodman (1951, p. 237): “(o) desejo é doloroso por causa do esforço de inibi-lo (...)”. O

acesso a esse esforço, a sua vez, não se dá a partir da lembrança da cena inibitória. Ao

contrário, para Perls, Hefferline e Goodman, é a partir da vivência do excitamento

interrompido (ou ansiedade) que a cena inibitória pode reaparecer e, assim, liberar o desejo (a

situação inacabada) para a realização.

A conexão essencial aparente com pensamentos esquecidos específicos, evidente
quando a repressão dos pensamentos é suspensa, deve-se, argumentamos, ao fato de
que foi numa determinada situação que restringimos deliberadamente a excitação e a
suprimimos – e essa atitude logo se tornou habitual e foi esquecida; portanto, o
primeiro desenvolvimento livre da excitação para a liberação da inibição estimula
uma lembrança anterior antiga como sendo sua técnica disponível. Não é a lembrança
que libera essencialmente o impulso, mas a manifestação do impulso que estimula a
lembrança.” (1951, p. 238)

9

Perls, Hefferline e Goodman empregam a noção de inconsciente num sentido topologicamente compatível com
a noção freudiana de inconsciente (porquanto, para ambos, está-se a designar algo inacessível), mas econômica e
dinamicamente distinta (uma vez que, para Perls, Hefferline e Goodman, o inconsciente não é formado por
excitamentos esquecidos, mas por hábitos inibitórios esquecidos, os quais, a sua vez, não demandam um agente
recalcador).

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Dizendo por outras palavras: não é a lembrança da cena inibitória que libera o excitamento

inibido, mas é a manifestação ansiogênica do excitamento que libera a repressão. O que talvez

explique por que razão, para Perls, Hefferline e Goodman, em se tratando da metodologia de

intervenção clínica: importa mais ao gestalt-terapeuta a concentração na manifestação afetiva

de um impulso da parte do consulente, do que a proposição de algum tipo de rememoração, de

especulação relativamente à biografia do próprio consulente.

3.3 – A NEUROSE COMO PERDA DAS FUNÇÕES DE EGO (PARA A

FISIOLOGIA SECUNDÁRIA)

Conforme vimos, nas experiências de fronteira em que estiver co-presente uma

inibição reprimida, sempre há o risco de não realização do processo de contato. Afinal, pode

acontecer de o excitamento mobilizado pelo dado na fronteira de contato coincidir justamente

com aquele que a inibição reprimida esteja a inibir. Nesses casos, a inibição reprimida reagirá

expulsando o dado, de modo a impedir o avanço do excitamento inibido e, conseqüentemente,

o contato desse excitamento com as possibilidades de futuro que aquele dado poderia abrir.

Se, por um lado, a inibição reprimida evita assim sua própria aniquilação, por outro, ela

impossibilita o sistema self de realizar a passagem do passado ao futuro. Ela impossibilita o

sistema self de exercer sua função de ego.

De fato, para os autores, se a repressão é uma sorte de reação inconsciente promovida

por nossas inibições habituais face à ansiedade insuportável provocada pela presença de um

dado capaz de realizar o excitamento inibido; a neurose é o comprometimento da função de

ego em decorrência daquela ação. Porquanto não pode dispor do dado que a inibição

reprimida tratou de afastar, menos ainda do excitamento inibido que este dado mobilizou e

que a inibição reprimida continua a inibir, a função de ego perde funcionalidade no campo. A

partir de então, tudo se passa como se o comportamento desempenhado na fronteira de

contato não respondesse aos estímulos do meio, como se o “autor” desse comportamento – a

posteriori denominado de neurótico - não os percebesse, ou os percebesse de modo distorcido.

Em vez de criações funcionais (operadas a partir dos hábitos), o “neurótico” cria respostas

incompatíveis com as possibilidades abertas pelo dado no meio. Tudo se passa como se seu

comportamento fosse atravessado por um estranho que, por conta própria, atuasse em favor de

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uma cena diferente daquela que efetivamente se estabelece na fronteira de contato. Mais do

que isso, o “autor” desses comportamentos parece sofrer com isso; ou, então, seus

comportamentos exprimem sofrimento. Conforme passagem já citada, mas que tornamos a

repetir dada a sua importância (1951, p. 235-236):

(...) a neurose é a evitação do excitamento espontâneo e a limitação das excitações. É
a persistência de atitudes sensoriais e motoras quando a situação não as justifica ou de
fato quando não existe em absoluto nenhuma situação-contato, por exemplo, uma
postura incorreta que é mantida durante o sono. Esses hábitos intervêm na auto-
regulação fisiológica e causam dor, exaustão, suscetibilidade e doença. Nenhuma
descarga total, nenhuma satisfação final; perturbado por necessidades insatisfeitas e
mantendo de forma inconsciente um domínio inflexível de si próprio, o neurótico não
pode se tornar absorto em seus interesses expansivos, em levá-lo a cabo com êxito
(...)”.

Para Perls, Hefferline e Goodman, enfim, “(o)s comportamentos neuróticos são ajustamentos

criativos de um campo onde há repressão” (1951, p. 248). Não obstante dispor de um fundo

de excitamentos (a partir dos quais pode se ocupar dos dados na fronteira de contato), nos

comportamentos neuróticos, o self é refém de uma “fisiologia secundária” que,

inconscientemente, trabalha no sentido de afastar o dado e evitar a expansão dos excitamentos

que ela mesma inibe. Por conseguinte, o contato do self com os dados na fronteira de contato

é constantemente interditado pelas forças reativas desencadeadas a partir da inibição

reprimida. A função de ego não pode ser desempenhada. Eis então a neurose, a qual consiste

na “perda das funções de ego para a fisiologia secundária sob a forma de hábitos inacessíveis”

(PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 235).

Ainda assim, o self experimenta, na fronteira de contato, a pressão exercida pelo

excitamento inibido, a tensão ansiogênica provocada por tal excitamento. Como lidar com ela

se a função de ego está interditada? É nesse momento que a inibição reprimida passa a fazer

às vezes do ego, não para estabelecer o contato entre o excitamento inibido e as possibilidades

abertas pelo dado na fronteira de contato, mas, ao contrário, para impedir esse contato. Eis

então os ajustamentos neuróticos (que, como tal, não se confundem com a formação reativa,

porque não estão dirigidos contra os dados na fronteira de contato, mas contra os próprios

excitamentos inibidos)10.

10

Além da formação reativa e do ajustamento neurótico, Perls, Hefferline e Goodman admitem mais uma função
desempenhada pela inibição reprimida, a saber, a “sublimação”. Todavia, diferentemente de Freud, para quem a
sublimação é um desvio na trajetória da pulsão (o abandono de um objeto sexual em proveito de um objeto de
descarga substitutivo, com aceitação social); para os fundadores da Gestalt-terapia, “o que é denominado
‘sublimação’ é uma satisfação direta mas imperfeita da mesma necessidade [ou excitamento, seja ele espontâneo
ou inibido, sexual ou não]” (1951, p. 245). Tal satisfação é imperfeita porque “a perda de funções de ego no
processo inconsciente de inibição impede o ajustamento criativo eficiente; porque a própria excitação está
matizada de dor, dificuldade e masoquismo; e estes matizam o interesse a ser satisfeito; porque as limitações que

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3.4 - DESCRIÇÃO DOS AJUSTAMENTOS NEURÓTICOS

As várias tentativas de interrupção da ansiedade (ou excitamento interrompido)

constituem a base daquilo que Perls, Hefferline e Goodman denominam de “ajustamentos

neuróticos”. Tais ajustamentos são diferentes entre si, dependendo de qual momento do

processo de contato é atingido pelo excitamento interrompido e respectivo efeito

ansiogêncio11, e quais estratégias compensatórias são engendradas pelo hábito inibitório.

Conforme Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 249),

(q)ueremos expor agora a idéia de que os diferentes mecanismos e “caracteres” do
comportamento neurótico podem ser observados como sendo as etapas do
ajustamento criativo nas quais o excitamento é interrompido.

Não se trata, entretanto, de estabelecer uma tipologia de pessoas neuróticas ou de quadros

patológicos estabilizados. Para Perls, Hefferline e Goodman, a descrição dos ajustamentos

neuróticos é, em verdade, a descrição das ações possíveis que a fisiologia secundária do self

estabelece para interromper a expansão dos excitamentos por ela mesma (fisiologia

secundária) inibidos. Essas ações possíveis, a sua vez, não estão regidas por um agente

externo ou por um imperativo que determinasse uma seqüência de ajustamentos. Ao contrário,

as formas - segundo as quais a fisiologia secundária tenta interromper a expansão do

excitamento que ela mesma inibe - têm relação com o modo dinâmica (temporal) segundo a

qual o self se auto-regula na experiência de contato.

Conforme vimos na discussão anterior sobre a fenomenologia do self, em seu

funcionamento espontâneo, o sistema self desencadeia, de maneira simultânea, várias

orientações: i) por um lado, o sistema self se ocupa de oferecer, para os dados na fronteira de

contato, o fundo de excitamentos espontâneos exigido por esses dados (oferecimento esse que

caracteriza o pré-contato); ii) por outro, se ocupa de operar, nas possibilidades de futuro

abertas por esses dados, com aquele fundo de excitamento espontâneo, o qual, assim, ganha o

status de ação (a que Perls, Hefferline e Goodman denominam de “contatando”); iii) em

estão operando tornam o interesse sempre um tanto abstrato e desvinculado da necessidade, e porque a
inabilidade de se tornar espontâneo impede uma liberação plena. Portanto, a sublimação é compulsivamente
repetitiva, o organismo não atinge um equilíbrio pleno, e a necessidade retorna com demasiada freqüência. A
masturbação ilustra com freqüência essas propriedades da sublimação. Não obstante, é evidente que a
sublimação não é um substituto, mas uma satisfação direta” (1951, p. 245).
11
É importante lembrar que, para os autores, conforme passagem já citada, a ansiedade é “a interrupção do
excitamento criativo” (1951, p. 249). Ou, ainda, “(a) ansiedade [é] o excitamento que foi de modo repentino
represado muscularmente (...)” (1951, p. 214). Por conseguinte, dizer que os ajustamentos neuróticos são i)
tentativas de interromper a “ansiedade” ii) ou interromper o “excitamento inibido” constitui a mesma afirmação.

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decorrência dessa ação, o self acaba por transcender suas próprias possibilidades em direção à

novidade (caracterizando, assim, o contato final); iv) e ao mesmo tempo em que se

transcende, o sistema self assimila, ao fundo de excitamentos já retidos, as ações e

experiências de contato final operadas nesse movimento de passagem (assimilação essa que

Perls, Hefferline e Goodman denominam de pós-contato).

Ora, em se tratando dos ajustamentos neuróticos, a diferença reside em que o sistema

self (na função ego) não pode mais operar com determinados excitamentos espontâneos que

estejam sendo exigidos, ao menos em sua forma fluida. Eles foram inibidos e se mantêm

assim por conta de uma ação inibitória, a qual, a sua vez, permanece reprimida. Se surgir

algum dado na fronteira de contato capaz de mobilizar tais excitamentos, haverá mais tensão

no fundo, uma sobrecarga de ansiedade, obrigando a inibição reprimida a reagir contra tal

dado (formação reativa, conforme vimos no item anterior). Mas o que a inibição reprimida

não pode evitar é a expansão daqueles excitamentos ansiogênicos pelas várias etapas do

processo de contato. Razão pela qual, nas diversas orientações, veremos a inibição reprimida

tentando interromper tal ansiedade, tentando interromper a manifestação dos excitamentos

inibidos, apresentem-se eles: no pré-contato, no contatando, no contato final ou no pós-

contato.

Na inibição neurótica (...): o fundo está ocupado por uma repressão, um processo de
inibição crônico que foi esquecido e é mantido esquecido. (...) A interrupção presente
(a perda das funções de ego) ocorre diante desse fundo. A diferença de tipos consiste
em se a interrupção ocorre: 1) Antes da nova excitação primária. Confluência; 2)
Durante a excitação. Introjeção; 3) Confrontando o ambiente. Projeção; 4) Durante o
conflito e o processo de destruição. Retroflexão; 5) No contato final. Egotismo
(PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 251-252).

Dependendo de qual orientação se têm em conta quando se olha para o trabalho de

interrupção estabelecido pela inibição reprimida, percebemos um tipo específico de

ajustamento neurótico. No “pré-contato”, Perls, Hefferline e Goodman descrevem ações de

interrupção do excitamento denominadas de introjeção. No “contatanto”, eles reconhecem

outras estratégias de interrupção do excitamento ansiogênico, às quais denominam de

projeção e retroflexão. No “contato final” temos uma estratégia de interrupção denominada de

egotismo. E a tentativa de aniquilação da ansiedade (ou excitamento inibido) no momento do

pós-contato é denominada, por Perls, Hefferline e Goodman, de ajustamento confluente. Tal

como na experiência do contato, não há, entre essas tentativas de interrupção, uma seqüência

objetiva. Elas acontecem quase simultaneamente. Se nos ocupamos de uma, as outras

continuam operando como fundo. Razão pela qual, Perls, Hefferline e Goodman vão definir

52

os ajustamentos neuróticos como um “comportamento único” (1951, p. 259)

No diagrama a seguir (GRANZOTTO e MÜLLER-GRANZOTTO, 2004, p.94) - que é

uma continuação dos diagramas apresentados no capítulo primeiro, acrescidos da

representação dos ajustamentos neuróticos - procuramos descrever, na série dos eventos de

fronteira, as diversas formas de interrupção da expansão do excitamento inibido e as figuras

parciais que essas formas constituem: precisamente, figuras “ausentes” no caso da

confluência, “estranhas” no caso da introjeção, “do semelhante” no caso da projeção,

“impossíveis” no caso da retroflexão e “irrelevantes” no caso do egotismo. São essas figuras

(às quais podemos também chamar de sintomas observáveis) que exprimem, de modo

material, o esforço da inibição reprimida para bloquear os excitamentos inibidos que

vislumbraram, na fronteira de contato, um dado capaz de realizá-los. Tal esforço de

interrupção do excitamento, a sua vez, pode aparecer como uma agressão em relação ao

organismo “O” (entendendo-se por organismo o universo de “co-dados” – hábitos,

pensamentos, imagens e afetos – que, espontaneamente, surgem na fronteira de contato

acompanhando a ansiedade). Mas também pode aparecer como uma agressão em relação ao

ambiente “M” (entendido como o conjunto de dados suplementares por cujo meio a ansiedade

se exprime ou se evade, conjunto esse que não se distingue de nossos laços sociais). Nos dois

casos, a tentativa de interrupção sempre caracteriza uma criação comportamental, que é a

satisfação possível “S” proporcionada pela função de ego ao sistema self. (PERLS,

HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, P. 58).

53

FUNDO DE
POSSIBILIDADES

O

ÇÃ

A
ER
IB
EL
D

INIBIÇÃO
DELIBERADA

ESQUECIMENTO

FUNDO DE
POSSIBILIDADES
ADAPTADAS

NÃO HÁ
CONTATO
FINAL

O: REPÚDIO À
EMOÇÃO
M: PROVOCAÇÃO
PASSIVA
S: FANTASIA

FUNDO DE
POSSIBILIDADES
ADAPTADAS

P
R
O
J
E
Ç
Ã
O

NÃO HÁ
CONTATO
FINAL

O: DESMANTELAMENTO
OBSESSIVO
M: AUTO-DESTRUTIVIDADE
DOENÇA SECUNDÁRIA
S: CONTROLE ATIVO
SADISMO

FUNDO DE
POSSIBILIDADES
ADAPTADAS

O

Ã

X

RE

E

T R OF L

NÃO HÁ
CONTATO
FINAL

O: FIXAÇÃO
ABSTRAÇÃO
M: CONTROLE
DELIBARADO
EXCLUSÃO
S: VAIDADE

FUNDO DE
POSSIBILIDADES
ADAPTADAS

O

EG

M

O T IS

NÃO HÁ
CONTATO
FINAL

EVENTO
1

TO
EN

M

A
IT
C

ASSIMILAÇÃO

EX

FUNDO
ASSIMILADO

FUNDO DE
POSSIBILIDADES

ÃO


ER
IB
EL

D

EVENTO
2

TO
EN
M

A
IT
C

EX

SITUAÇÃO
INACABADA

TO

EN
M

TA
CI
EX

SITUAÇÃO
INACABADA

TO

EN

M

TA
CI
EX

SITUAÇÃO
INACABADA

TO
EN

M
TA
CI
X
E

SITUAÇÃO
INACABADA

TO

EN
M

TA
CI
EX

SITUAÇÃO
INACABADA

O: INVERSÃO DO
AFETO
M: RESIGNAÇÃO
S: MASOQUISMO

O: APEGO
M: PARALISIA
E
DESSENSIBILIZAÇÃO
S: HISTERIA
I
REGRESSÃO
N
T
R
O
J
E
Ç
Ã
O

A

UÊ N C I

FL

ON

C

INIBIÇÃO
REPRIMIDA

FISIOLOGIA
SECUNDÁRIA

INIBIÇÃO
REPRIMIDA

VAZIO

INTROJETO
LEI

DÚVIDA
LACUNA

RITUAL
PAPEL

FUNDO
ASSIMILADO

EXPLICAÇÃO

VAZIO

INTROJETO

LACUNA

RITUAL
PAPEL

FUNDO
ASSIMILADO

INIBIÇÃO
REPRIMIDA

VAZIO

INTROJETO

LACUNA

FUNDO
ASSIMILADO

INIBIÇÃO
REPRIMIDA

VAZIO

INTROJETO

FUNDO
ASSIMILADO

INIBIÇÃO
REPRIMIDA

VAZIO

O diagrama acima tem a virtude de representar, como um processo único, os vários

ajustamentos observáveis na fronteira de contato (círculos maiores), sinalizando (por meio das

setas em linha cheia) os momentos, no fluxo da vivência de contato, em que o excitamento

inibido tenta se expandir e os momentos em que ele é interrompido (linhas pontilhadas).

Evidentemente, trata-se de uma representação didática, afinal, o pré-contato, o contatanto, o

contato final e o pós-contato são orientações temporais e, nesse sentido, inobserváveis. Aquilo

apenas que se pode observar são os efeitos materiais das estratégias de interrupção operadas

pela inibição reprimida em cada uma dessas orientações, efeitos esses que sempre aparecem

na fronteira como: uma agressão ao organismo co-dado (“O”), uma agressão ao meio dado

(“M”), e uma paixão ou satisfação possível expressa (“S”) junto aos diversos

comportamentos. O diagrama, ademais, tem o defeito de ignorar, entre os eventos

disfuncionais, a possibilidade de haver eventos outros em que se estabeleçam ajustamentos

saudáveis, o que significa dizer: ajustamentos em que os dados presentes não estejam a

requisitar excitamentos espontâneos que, em decorrência da ação de uma inibição

inconsciente, restem como necessidades abertas e, conseqüentemente, como fonte de

ansiedade. Mas, como o propósito é tão somente identificar como a ação temporal de

interrupção desempenhada pela inibição reprimida aparece na fronteira de contato,

representamos um quadro neurótico hipotético, em que: uma vez estabelecida uma inibição

reprimida, ela faria uma “seqüência” de ajustamentos neuróticos com o objetivo de

interromper o excitamento inibido.

Conforme o diagrama, em decorrência de não se haver estabelecido a passagem do

excitamento mobilizado no “evento 2” para um evento terceiro (porquanto este terceiro

evento é uma inibição deliberada), a experiência malograda de passagem (que caracterizou o

“evento 2”) não foi assimilada como fundo (pós-contato), por exemplo, do próprio evento

terceiro (denominado “inibição deliberada”). O “evento 2” restou como excitamento

espontâneo não assimilado ou, o que é a mesma coisa, situação inacabada. E tudo estaria

resolvido caso tal situação, devidamente modificada, pudesse encontrar no evento quarto a

ocasião do contato final. Mas o fato é que aquela inibição deliberada (no evento terceiro)

também ficou retida. Pior do que isso, ela continuou exercendo função, continuou bloqueando

a realização da situação inacabada. Conseqüentemente, ao primeiro sinal de mobilização

dessa situação, a inibição se antecipara à função de ego, privando este da possibilidade de

estabelecer o contato entre a situação inacabada e as possibilidades abertas pelo evento

quarto. Alcançamos aqui, em carne e osso, a presença da inibição reprimida agindo como

55

impedimento da emergência da situação inacabada e, conseqüentemente, da ação do ego.

Ainda assim, a inibição reprimida sofreu um aumento de tensão, ou, o que é a mesma coisa, o

excitamento inibido avolumou-se. Para interromper esse estado de ansiedade, a inibição

reprimida assume as funções de ego. Eis então o início dos ajustamentos neuróticos.

O “primeiro”12 ajustamento neurótico, a primeira criação que a inibição reprimida

estabelecerá na fronteira de contato, tal como representado no diagrama, é a “confluência”.

No ajustamento confluente, a inibição reprimida atua bloqueando toda e qualquer assimilação

do excitamento inibido, que assim não fica disponível para o evento quarto. Ao contrário, para

o evento quarto, o fundo está ausente (interrupção do pós-contato). Conseqüentemente, o

sistema self, na fronteira de contato, fica dessensibilizado, uma vez que não há fundo de

preteridade que pudesse ser emprestado ao dado. Para realizar esse bloqueio, a inibição

reprimida atua em duas direções. Do ponto de vista do organismo (‘O’), ela se apega aos

hábitos, pensamentos e afetos mais arcaicos, como aqueles que aconteceram muito antes da

situação inacabada que está sendo efetivamente requisitada na fronteira de contato. Por outras

palavras, ela se apega, no caso em tela, aos excitamentos espontâneos assimilados antes do

‘evento 2’. Mais do que isso, por meio desse apego, ele tenta evitar que nada de novo

aconteça.

Neuroticamente, a atitude presente – não reconhecer em absoluto a nova tarefa – é um
apegamento à inconsciência, como se estivéssemos nos apegando a um
comportamento consumado para obter satisfação, e como se a nova excitação fosse
roubá-lo; mas naturalmente, já que esse outro comportamento foi consumado e é
costumeiro, não há nenhuma satisfação consciente nele, mas somente uma sensação
de segurança. O paciente cuida para que nada novo aconteça, mas não há nenhum
interesse ou discernimento no que é antigo. Os exemplos arquetípicos são o
aleitamento ou o apegamento ao calor e ao contato corporal inconscientes, que não
são sentidos, mas cuja falta nos paralisa. (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN,
1951, p. 252).

Do ponto de vista da interação com os dados na fronteira (meio ‘M’): porquanto o objetivo é

impedir que eles sejam alimentados por qualquer excitamento que advenha do fundo,

especialmente pelo excitamento inibido, a inibição reprimida desenvolve uma atitude de

paralisia muscular, por cujo meio rejeita que os hábitos antigos (aos quais se apega) sejam

preenchidos por novos núcleos significativos (novas tensões materiais).

12

Conforme veremos no capítulo quinto, a inibição reprimida é capaz de reverter a orientação temporal da
seqüência dos ajustamentos. Por isso, poderemos observar tanto a tentativa de interrupção da assimilação do
excitamento – o que implica uma seqüência de interrupções que vai da confluência em direção ao egotismo (que
descrevemos logo a seguir). Ou, então, poderemos observar a interrupção da abertura de novos campos de
presença para o excitamento inibido – o que implica seqüência de interrupções que vai do egotismo à
confluência.

56

Com relação ao ambiente, a atitude é impedir que o comportamento consumado seja
roubado (pelo desmame). O maxilar está fixo na mordida persistente da criança de
peito com dentes, que poderia passar para outros alimentos mas se recusa a fazê-lo;
ou temos um abraço de urso na copulação; ou mantemos um controle ferrenho nas
relações interpessoais. Essa paralisia muscular impede qualquer sensação (PERLS,
HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 252-253).

Ao self resta se deixar alienar por possibilidades que não são “suas”, são dos semelhantes

(entendendo-se por semelhante uma imagem, um significante ou uma ação em que a função

de self denominada “personalidade” reconhece um duplo de si mesma). O que, ao menos,

implica uma satisfação parcial, uma liberação parcial, senão da ansiedade, ao menos dos

excitamentos antigos. Perls, Hefferline e Goodman denominam essa satisfação possível de

“histeria”, querendo designar por isso: uma espontaneidade aleatória, sem controle da função

de ego, em que o self conflui, “flui com” os semelhantes, com qualquer um (1951, p. 253).

Dessa experiência, o self não pode assimilar mais do que um sentimento de vazio, porquanto

as possibilidades encontradas não são sentidas como suas.

No ajustamento introjetivo, o self já não pode ignorar, em torno do novo dado que se

apresenta (como evento quinto no diagrama supra), a co-presença de um fundo de ansiedade,

a co-presença do excitamento inibido (representado por uma linha oblíqua cheia que avança

na região do pré-contato). Por conta disso, a inibição reprimida passa a atuar no meio natural

e no laço social que compreendem o self naquele momento de modo a interromper o avanço

de tal excitamento. Trata-se de uma obstrução do pré-contato entre o self e seu próprio fundo

de co-dados. A estratégia da inibição reprimida, dessa vez, é a substituição desse excitamento

ansioso por uma lei simbólica estabelecida no meio social, e na qual o self possa identificar,

além de uma forma vigorosa de coerção, algum afeto tolerável. Tal significa, primeiramente,

dirigir contra o excitamento ansioso uma regra social (um padrão de comportamento, de

vestuário, de uso da linguagem...) que o possa coagir. Em segundo lugar, tal significa assumir

o valor imaginário promulgado por essa regra, o que sempre exige da inibição reprimida a

inversão do próprio afeto oriundo da situação inacabada remanescente. Nas palavras de Perls,

Hefferline e Goodman (1951, p.253-254):

(n)euroticamente o introjetor chega a um acordo com seu próprio apetite frustrado,
invertendo o afeto deste antes que possa reconhecê-lo. Essa inversão é obtida pelo
próprio processo de inibição. O que queremos é sentido como imaturo, repugnante,
etc. Ou, ao contrário, se for um impulso de rejeitar algo que está inibido (uma
oposição à alimentação forçada) o paciente se persuade de que o indesejado é bom
para ele, é realmente o que quer etc. Mas morde a coisa sem degustá-la ou mastigá-la.

De onde se segue, em relação ao meio social, uma atitude resignada, de aceitação do padrão

57

“oficial” e ostentação de demandas “infantis” e “condescendentes” (PERLS, HEFFERLINE e

GOODMAN, 1951, p. 254). A satisfação possível alcançada nesses ajustamentos é o

“masoquismo”, entendendo-se por isso “a possibilidade de ajustar, de modo criativo, o

ambiente numa estrutura em que infligimos dor a nós próprios com a aprovação de nossas

identificações falsas” (1951, p. 254). O que, desse ajustamento, o self pode assimilar é uma lei

ou introjeto, um expediente social com o qual se identificou e que doravante fará parte de sua

personalidade (entendida como a função de constituição de uma identidade objetiva).

Se a inibição reprimida afrouxar o controle, permitindo ao excitamento inibido o

vislumbre de um novo dado na fronteira de contato, os ajustamentos introjetivos não serão

suficientes para evitar o contato do self com a ansiedade. As leis sociais já não se mostrarão

competentes para conter a emergência do excitamento ansiogênico, o que exigirá da inibição

reprimida uma outra forma de ajustamento criativo, precisamente, a projeção. Esta consiste no

esforço da inibição reprimida para evitar o “confronto com as possibilidades” que o dado

material abriu para aquele excitamento e respectiva ansiedade. Noutras palavras, no

ajustamento projetivo, a inibição reprimida se desincumbe das ações que caracterizam o

momento do “contatando”, e as atribui àquilo que, no laço social, caracteriza o “semelhante”.

Conforme a ilustração de Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 255):

(o) exemplo típico de projeção neurótica é que A tem planos com relação a B
(eróticos ou hostis), mas A inibe sua aproximação; dessa forma, sente que B tem
planos com relação a ele. Evita a frustração da emoção negando que esta seja sua.

Sua postura global no laço social caracteriza-se por uma atitude de provocação inconfundível.

“O que ele deseja intensamente é a aproximação e o contato e, já que não consegue dar o

passo, tenta fazer com que o outro o dê” (PERLS, HEFFELINE e GOODMAN, 1951, p. 255).

Com esse tipo de ajustamento, a inibição reprimida assegura ao self uma satisfação possível

que consiste na fantasia. Tal fantasia mais não é do que “a representação, como que num

sonho, da cena dramática temida. Ele rumina do princípio ao fim, e esse remoer está repleto

de pensamentos muito falseados” (1951, p. 255). A inibição reprimida fantasia o confronto

com as situações ansiogênicas, mas na “pele” do semelhante, como se ela própria fosse esse

outro. De todo modo, tal como no sonho, há algo que não faz sentido, há uma lacuna que não

se deixa preencher de sentido. Essa lacuna, a sua vez, é o que acaba prevalecendo como fundo

assimilado.

Mas suponhamos, conforme nos propõem Perls, Hefferline e Goodman, “que as

energias expansivas, de orientação e de manipulação” estejam “totalmente comprometidas

58

com a situação ambiental” (1951, p. 255) e que o self já não possa mais considerá-las

estrangeiras. A ansiedade (advindo da situação inacabada) e a impressão (deixada pela

inibição reprimida) de que tal excitamento não poderá ser satisfeito já não podem ser

ignorados. A projeção já não evita mais o confronto com a ansiedade. O “conflito entre o

excitamento represado e a inibição reprimida (esquecida)” está sendo revivido intensamente.

A alternativa da inibição reprimida, dessa vez, é desmantelar os termos desse conflito, o que

significa desmantelar o próprio self, estabelecer sua própria destruição. Eis aqui o ajustamento

retroflexivo:

“(n)ormalmente, a retroflexão é o processo de auto-reformar-se; por exemplo,
corrigindo a abordagem não prática, ou reconsiderando as possibilidades da emoção,
fazendo um reajustamento, como sendo fundamento para ações ulteriores.” (PERLS,
HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 256)

Tal é o que podemos observar nos processos de remorso e tristeza. Neles, as pessoas, por um

lado, se lamentam pelas escolhas que fizeram. Por outro, mantêm-se ocupadas reconsiderando

uma possibilidade na qual, entrementes, nunca apostaram, ou deixaram para trás. O discurso é

freqüentemente articulado no futuro do pretérito: primeiro, eu não deveria, eu não poderia,

segundo, eu deveria, eu poderia... O dado atual é identificado a um objeto perdido, inatingível

ou que não pode mais ser realizado. O que significa que, se estiverem envolvidas num

empreendimento, por exemplo, tais pessoas trabalharão...

(...) de maneira inconsciente para o fracasso deste. Esse processo é conduzido muitas
vezes engenhosamente para produzir resultados secundários que realizam a intenção
inibida original: por exemplo, para não machucar sua família e amigos, ele se volta
contra si próprio e produz enfermidades e fracassos que envolvem sua família e seus
amigos. Mas ele não obtém satisfação disso, apenas mais remorso (PERLS,
HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 256).

A satisfação possível que alcançam aqui é uma espécie de sadismo ativo, porquanto geram no

meio a comoção geral por seu infortúnio e ocupação exacerbada.

A satisfação direta do retrofletor é seu sentimento de controle ativo e de estar ocupado
com assuntos plenos de interesse – porque ele está ocupado de modo obsessivo e
sente o impacto na pele. Suas [do retrofletor] idéias e planos são muitas vezes bem
informados, bem ponderados, e sentidos com uma seriedade extraordinária – mas
[nós, que não estamos retrofletindo] ficamos ainda mais desconcertados e finalmente
desenganados pela timidez e hesitação com que se interrompem antes de serem postos
em ação (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 256).

O que é assimilado dessa experiência é um ritual, um papel, em que os “retrofletores” se

apresentam como heróis trágicos, conformados à própria má sorte.

Os dados na fronteira de contato, entrementes, não param de surgir. As possibilidades

59

de realização do excitamento inibido também. Razão pela qual, se uma dessas possibilidades

se mostrar adequada ao contato final, o ajustamento retroflexivo ficará muito ameaçado. A

inibição reprimida não conseguirá deter-se nas possibilidades remotas. Já não se trata de

evitar uma ansiedade surgida no momento do contatando (como no caso da projeção e da

retroflexão): a inibição reprimida está efetivamente lidando com as possibilidades de contato.

O que ainda se pode interromper é o contato final. Coisa que a inibição reprimida fará por

meio de um expediente de evitação que Perls, Hefferline e Goodman denominaram de

egotismo: a inibição reprimida fica confluída numa função de deliberação, como se fosse um

ego. Dessa forma, ela adia o contato final substituindo-o por uma nova possibilidade e assim

sucessivamente.

Neuroticamente, o egotismo é um tipo de confluência com a awareness deliberada, é
uma tentativa de aniquilação do incontrolável e do surpreendente. O mecanismo de
evitar a frustração é a fixação, a abstração do comportamento controlado a partir do
processo em andamento. O exemplo típico é a tentativa de manter a ereção e impedir
o desenvolvimento espontâneo do orgasmo. Por esse meio, ele demonstra sua
potência, demonstra que “consegue”, e obtém uma satisfação da vaidade. Mas o que
está evitando é a confusão, ser abandonado (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN,
1951, p. 257)

Do ponto de vista de suas relações sociais, a inibição reprimida:

(...) evita surpresas do ambiente (medo de competição) tentando isolar-se como sendo
a única realidade: isto ele faz “assumindo o comando” do ambiente e o tornando seu.
Seu problema deixa de ser um problema de contatar algum Tu no qual esteja
interessado, e passa ser um problema de acumular ciências e relações pessoais, incluir
uma parte cada vez maior do ambiente no seu campo de ação e sob seu domínio, para
que ele próprio seja irrefutável (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p.
257).

A satisfação possível que assim a inibição reprimida logra é o domínio verbal sobre a

espontaneidade do self. Tal espontaneidade resta compartimentada em frações previsíveis,

sobre as quais a inibição reprimida exerce um controle deliberado. A inibição reprimida se

sente vaidosa por sua capacidade de gerência e se julga desejada por isso, como se fosse um

ego muito potente. Para Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 258), o ajustamento egotista é

característico do psicanalisado:

o paciente compreende seu caráter perfeitamente e acha seus “problemas” mais
absorventes do que qualquer outra coisa – (...) sem a espontaneidade e o risco do
desconhecido, não assimilará a análise assim como nenhuma coisa.

Não raro nos deparamos na clínica com essa forma de ajustamento, principalmente no início

do processo terapêutico ou nos primeiros minutos da sessão, quando observamos nosso

60

consulente se perder em abstrações infindáveis, que tudo explicam acerca de si e que

asseguram a ele um perfeito controle deliberado. Não obstante ele sofrer por não se livrar da

ansiedade que o persegue todas as vezes que tem a possibilidade de ir até o fim nas relações

que esteja vivendo, ele se envaidece com o fato de ao menos “saber” disso, e se sente muito

seguro de si. Reproduz na relação com o terapeuta essa estratégia, e evita com a linguagem

todo tipo de trabalho que o faça enfrentar seus próprios sentimentos e ações.

Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 259) acreditam que essa descrição dos

ajustamentos estabelecidos pela fisiologia secundária frente à ameaça de expansão dos

excitamentos inibidos não deveria ser tomada como definitiva. Enquanto função criativa, a

inibição reprimida pode estabelecer inúmeras outras, bem como combinar essas formas de

ajustamento entre si. Eis por que então afirmam que: “(o) esquema pode ser multiplicado

indefinidamente por meio de combinações das categorias uma com a outra, como por

exemplo: “confluência de introjetos”, “projeção de retrofletos””. Nesse sentido, os autores

ensaiam algumas combinações em torno do ajustamento introjetivo, que segundo eles, dá

conta daquilo que a psicanálise freudiana chama de “superego” (PERLS, HEFFERLINE e

GOODMAN, 1951, p. 259) . Tais combinações fundamentalmente seriam as seguintes:

1) a confluência com nossos introjetos é o sentimento de culpa, 2) a projeção dos
introjetos é a pecaminosidade, 3) a retroflexão dos introjetos é a rebeldia, 4) o
egotismo dos introjetos é o conceito de ego, 5) a expressão espontânea dos introjetos
é o ideal de ego (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 259).

A verdade é que as discussões em torno dessas combinações nunca foram aprofundadas na

literatura de comentadores da Gestalt-Terapia. Exceção seja feita para a obra de Jean-Marie

Robine (1997), que diligentemente se ocupou de pensar a manifestação dessas estruturas no

ambiente clínico. De todo modo, a articulação entre essas estruturas e os conceitos

psicanalíticos que elas deveriam repensar nunca foi estabelecida. O que abre uma nova frente

de interlocução entre a clínica gestáltica e a psicanálise pós-freudiana.

61

4 – ÉTICA DA INTERVENÇÃO CLÍNICA NOS AJUSTAMENTOS

NEURÓTICOS

O termo ‘ética’ vem dos gregos, que o empregavam de duas formas distintas:

êthos e éthos. Na forma mais antiga, ética (êthos) era utilizado para significar “morada,

abrigo, refúgio”, lugar onde somos “autênticos e despidos” de defesas, estamos protegidos,

abrigados, e podemos receber o outro. Posteriormente, ética (éthos) passa a merecer um uso

mais abstrato, ligado à filosofia prática. Na tradição aristotélica, por exemplo, ética (éthos)

expressa um modo de ser, uma “atitude” diante de si, do outro e do mundo. Indica a postura

do homem diante da vida objetiva. O uso cotidiano, nas mais das vezes, ignora essa diferença,

como se o segundo emprego do termo contemplasse o primeiro. A prática psicoterapêutica da

Gestalt-terapia vai à contramão dessa tendência, em favor de algo que o primeiro emprego

quer assegurar, precisamente, o acolhimento ao “outro”.

De fato, nos dias de hoje, quando falamos em “ética”, quase só empregamos o termo

no sentido aristotélico (éthos). Ética significa para nós uma atitude ampla e universalizável,

formada de comportamentos que foram legitimados por representações coletivas, como é o

caso das regras prudenciais, das convenções sociais, dos contratos e regras jurídicas

instituídos no âmbito de nossas comunidades. Por meio dessas representações, zelamos por

certa identidade social que é a nossa identidade atitudinal. Ou, então, por meio delas

garantimos e favorecemos a emancipação social de cada pessoa. Não apenas isso, também nos

protegemos dos comportamentos que poderiam ameaçar nossa unidade objetiva ou, como

dizemos em Gestalt Terapia, nossa personalidade, gerando sofrimento social, político, moral,

racial, afetivo, dentre outros. Nesse sentido, falamos de uma atitude ética, entendendo por isso

62

um comportamento balizado por representações publicamente sancionadas.

Essas representações, entretanto, não abrangem a totalidade dos fenômenos que se

exprimem em nossos comportamentos e que, malgrado o formato não objetivo, ainda assim

integram nossa unidade atitudinal, por exemplo, nossos sentimentos, afetos, esquecimentos,

hábitos etc. Por outras palavras, em nossos comportamentos, há um excesso de sentido que

não se deixa apreender pelo formato objetivo de nossas representações coletivas, de nossos

códigos, de nossas normas. Trata-se – sem dúvida – de algo intimamente vinculado as nossas

formas de interação social, mas que as ultrapassa, como se fosse, senão um efeito

inapreensível dessas formas, ao menos uma reação promovida por algo que essas formas

ignoram. A partir da fenomenologia, a Gestalt-terapia chama esse excesso de função id. Nela,

ademais, reconhece a existência de um domínio inacessível, que é o domínio das inibições

reprimidas. Ainda que “invisível”, a função id está sempre co-presente, como aquilo que quer

se repetir, se realizar. Razão porque, às vezes, sentimos necessidade de nos despir de nossas

identificações objetivas, para que essa identidade ignorada, essa experiência irrefletida de nós

mesmos possa emergir. De alguma forma, sentimos necessidade de uma morada segura, de

um ambiente protegido, em que nosso silêncio possa se exprimir enquanto silêncio, sem ser

confundido com uma forma objetiva. Sentimos necessidade de um êthos, de uma morada, que

pode ser muitos lugares, mas, também e eminentemente, um ambiente psicoterapêutico, seja

ele grupal ou individual. E eis que, de maneira muito especial, a prática psicoterapêutica

gestáltica reencontra e recupera o sentido primitivo da ética e institui, para o psicoterapeuta, a

tarefa de lidar com isso que é outro, com isso que para ele mesmo é “outro”.

Os ajustamentos neuróticos, conforme os fundadores da Gestalt-terapia, são formas

possíveis – mas não exclusivas - de manifestação disso que é “outro”. Tecnicamente falando,

trata-se de soluções criativas encontradas pelo sistema self para lidar com os excitamentos

acompanhados de ansiedade (decorrente da co-presença de uma inibição reprimida). Ainda

assim, porquanto implicam a interrupção daquele fluxo de excitamentos, tais ajustamentos

inviabilizam a ação da função de ego, a quem caberia estabelecer o “contato” entre tal fluxo e

as possibilidades abertas pelos dados na fronteira. O self não pode crescer, não pode

encontrar, para seu fundo de excitamentos, novas possibilidades de realização (ou, o que é a

mesma coisa, de repetição). E é para viabilizar ao sistema-self novas possibilidades de

ajustamento que a Gestalt-terapia propõe formas de intervenção clínica baseadas, por um

lado, na descrição fenomenológica dos ajustamentos neuróticos e, por outro, na descrição

fenomenológica da experiência de percepção da alteridade. A partir dessas descrições, a

63

Gestalt-terapia entende a experiência clínica como uma prática que dá direito de expressão

àquilo que, por meio dos ajustamentos neuróticos, quer se repetir, precisamente, o

excitamento inibido e seu correlato inibitório. Mas, também, é o enfrentamento dessa

inconsciência em proveito da ampliação das formas de ajustamento do sistema self. Trata-se

dos dois lados de uma só ética, entendendo-se por ética não a observância dos contratos, mas

a disponibilidade para com aquilo que se manifesta espontaneamente a partir de si, tal qual

fenomenologia13, precisamente, o “outro”.

4.1 - PSICOTERAPIA COMO “ANÁLISE GESTÁLTICA”

A proposta de intervenção clínica da Gestalt-terapia não visa à suspensão dos

ajustamentos neuróticos, tampouco advoga em favor do fortalecimento dos mesmos. Ela não é

uma proposta clínica catártica – interessada na liberação dos excitamentos inibidos, por

exemplo, por meio da ab-reação emocional ou, então, por meio da dissolução das inibições

reprimidas entendidas como couraças (tal como as propunha Reich). Mas, também, não é ela

uma psicologia que visa o incremento dos ajustamentos neuróticos definidos, a sua vez,

menos como operações inconscientes e mais como mecanismos de defesa de uma instância

psíquica chamada “consciência” – conforme advogam os teóricos da “psicologia do ego”,

inspirados na teoria dos mecanismos de defesa de Anna Freud (1946)14. Contra essas formas

de intervenção, Perls, Hefferline e Goodman, (1951, p. 192 – grifo nosso) propõem uma

clínica cuja finalidade é permitir ao consulente concentrar-se em:

como suas figuras estão incompletas, distorcidas, inábeis, débeis, obscuras; e que as
deixe se desenvolver até atingirem um maior completamento, não evitando a
tendência sintética [ou de criação], mas mobilizando-a mais; nesse processo é
despertada a ansiedade e os conflitos emergem, e, ao mesmo tempo, o paciente está
cada vez mais em condições de enfrentar a ansiedade, de modo que se torne
novamente um excitamento vivo.

13

Heidegger (1927), inspirando-se no uso peculiar que Husserl deu ao termo fenomenologia, refaz sua
etimologia, explorando o fato de que o verbo legein (discursar), de que o substantivo logia é derivado, ser
sinônimo de apo-phainesthai, composto pelo prefixo apo (que significa fazer ver) e phainesthai (que é uma
forma verbal reflexiva que significa “manifestar-se desde si”), de onde provém a tradução da expressão
“fenomenologia” (legein ta phainomena) nos seguintes termos: fazer ver, a partir de si mesmo, aquilo que se
manifesta, tal como, a partir de si mesmo, se manifesta (apophainesthai ta phainomena).

14

Para Perls, Hefferline e Goodman, há que se distinguir: i) a função de ego definida como o agente do contato,
o sistema-awareness em operação e ii) o sistema de representações deliberadas denominado de ego ou
consciência. A psicologia do ego não compreende a vigência daquela função, restringindo-se a descrever as
representações inibitórias desenvolvidas por essa suposta instância psíquica chamada ego ou consciência (vide
PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 192).

64

Tal não é mais que fortalecer - não as inibições reprimidas ou os mecanismos de defesa – e,

sim, a função de ego por meio de situações emergenciais seguras, em que, paulatinamente, ela

possa tomar à frente da inibição reprimida na administração do excitamento inibido.

A proposta de intervenção catártica nos quadros neuróticos baseia-se na tese de que é

possível a suspensão do efeito da inibição (ou recalque) sobre o excitamento inibido. Por meio

da hipnose, por exemplo, o paciente poderia encontrar a cena traumática e, assim, resolver a

situação que ficou incompleta desde então. Os fundadores da Gestalt-terapia, por seu turno,

acreditam que isso seja impossível, uma vez que a ninguém é facultado apagar as marcas na

“camada de carvão” desse “bloco mágico” que é nossa história de generalidade. Por outras

palavras, ninguém consegue aniquilar o que ficou retido em cada vivência de contato como

fundo de co-dados para as novas vivências. Tanto é verdade que, mesmo em estado hipnótico,

os pacientes podem mentir. Dependendo do quão próximo eles ficam dos excitamentos

realmente inibidos, muitos deles fazem formações reativas. O que significa dizer que: em sua

tentativa de estabelecer um retorno à cena inibida, a hipnose não deixa de levar consigo as

marcas do trabalho inibitório. De onde se segue que, no campo da neurose, não há trabalho

com o excitamento que dispense a análise do “modo como” a inibição inconsciente atua. A

hipnose, lamentavelmente, não faria mais que acentuar a debilidade da função de ego para

lidar com a resistência da inibição reprimida.

A liberação do excitamento por meio da dissolução da inibição entendida como

couraça do caráter, a sua vez, baseia-se na expectativa reichiana de que o “paciente” possa se

tornar consciente dos modos pelos quais suprime seu excitamento inibido. E, ainda que os

fundadores da Gestalt-terapia confessem terem “uma dívida profunda com Reich por ele ter

tornado concreta a noção de Freud, um tanto abstrata, de repressão”; ainda que professem ser

“a idéia da couraça muscular de Reich (...) a contribuição mais importante para a medicina

psicossomática desde Freud” (1951, p. 35); eles acreditam haver “(...) uma inconsistência

espantosa quando tentamos fazer com que o paciente se torne consciente dos ‘meios pelos

quais’ ele suprime”. Afinal, mesmo quando o analista diz a seu paciente “relaxe e não

censure”, faz-se necessário observar que é precisamente isso o que o paciente não consegue

fazer. Ele não consegue relaxar e não censurar. Afinal, “(e)le ‘esqueceu’ a maneira como ele

se inibe. A inibição tornou-se rotina, um comportamento padronizado, da mesma maneira

que, ao lermos, esquecemos a grafia de cada palavra em separado” (PERLS, HEFFERLINE e

GOODMAN, 1951, p. 35).

Por sua vez, o fortalecimento das estratégias de defesa (sejam elas inconscientes ou

65

deliberadamente instituídas, conforme prefere a “psicologia do ego”) comprometeria ainda

mais a função de ego (entendida como função operativa e não enquanto instância psíquica).

Afinal, porquanto impedissem a emergência dos excitamentos inibidos, as estratégias de

defesa privariam a função de ego dos elementos a partir dos quais ela própria poderia

estabelecer a síntese de passagem que define a vivência do contato constitutiva do sistema

self. Tal comprometimento acabaria por estabelecer a “ociosidade” do sistema self. Nesse

particular, cabe mencionar o comentário que Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 191-192)

fazem sobre “as insuficiências dessas teorias da consciência (que são geralmente propostas

sob a forma de Teoria do Ego)”. Conforme aqueles autores (1951, p. 190),

(a)s dificuldades das teorias ortodoxas começam quando diferenciam entre a
consciência sadia e a consciência doente; porque a consciência sadia é considerada
ociosa – dinamicamente ociosa na teoria e portanto praticamente ociosa na terapia –
ela não faz nada. É somente a consciência doente que é efetiva, e é somente a esta que
se presta atenção com o objetivo de tirá-la do caminho.

Nesse aspecto, para os fundadores da Gestalt-terapia, “a função-self é tratada mais

adequadamente pelo próprio Freud, só que, devido a uma teoria falha da repressão, ele atribui

o trabalho criativo dessa função, na sua maior parte, ao inconsciente” tomado como um

conjunto de representações recalcadas (1951, p. 192).

Eis por que razão, apoiados na trajetória clínica de Perls e nas descobertas

experimentais de Goldstein, os fundadores da Gestalt-terapia proporão uma forma de

intervenção nos ajustamentos neuróticos que: i) por um lado, “atua” provocando a

“emergência segura” de situações ansiogênicas, às quais o consulente responde por meio de

ajustamentos neuróticos, até que uma formação reativa desnude a vigência de uma inibição

reprimida e de um excitamento inibido; ii) por outro, “atua” estabelecendo novos fundos de

experiência que permitam à função de ego criar outras formas de ajustamento, lidar com seu

fundo habitual “mais além” do que, neste, é imaginário ou reprimido. No primeiro caso, trata-

se de promover situações em que a inibição reprimida tenha de trabalhar. No segundo caso,

trata-se de promover situações em que a função de ego possa reassumir o comando da

experiência de contato. O que não significa, de forma alguma, assumir uma verdade, uma lei

ou a concepção científica do terapeuta. Trata-se, ao contrário, de experimentar isso que, de

alguma maneira, a função personalidade, por um lado, e a inibição reprimida, por outro,

mascaram, precisamente: que em se tratando de contato, não há nada de consistente a se

esperar, ou a se evitar, só a criar... Nesse sentido, escrevem Perls, Hefferline e Goodman

(1951, p. 235):

66

A terapia da neurose (...) é o processo deliberado de contatar esses hábitos (fisiologia
secundária) por meio de exercícios graduados, de maneira a tornar a ansiedade
tolerável.

Uma vez em contato com essa ansiedade, o processo de terapia consiste em:

mudar as condições e proporcionar outros fundos de experiência até que o self
descubra-e-invente a figura: “Eu estou evitando deliberadamente este excitamento e
exercendo esta agressão”. Poderá então prosseguir de novo em direção a um
ajustamento criativo espontâneo (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p.
236).

De onde se segue uma definição geral de intervenção formulada nos seguintes termos

(PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 49):

nosso método terapêutico é o seguinte: treinar o ego, as diferentes identificações e
alienações, por meio de experimentos com uma awareness deliberada das nossas
variadas funções, até que se reviva espontaneamente a sensação de que “Sou eu que
estou pensando, percebendo, sentido e fazendo isso”. Nessa altura, o paciente pode
assumir, por conta própria, o controle.”

Ao estabelecerem como meta da clínica que a função de ego possa reviver a “sensação” de

que é ela quem está no controle da experiência, Perls, Hefferline e Goodman não advogam em

favor da tese de que seja possível, por exemplo, uma sorte de controle judicativo sobre o

curso das ações. Como vimos anteriormente, a função de ego não é uma coleção de juízos. No

trecho supra, Perls, Hefferline e Goodman falam sobre a vivência espontânea de uma

“sensação”, o que significa que o “eu” a que se referem não deve ser entendido como uma

instância psíquica, mas como uma função operativa impessoal e, nesse sentido, anterior às

representações judicativas. O “treinamento” do ego, nesse sentido, não é senão um

investimento na autonomia dessa função.

O que se espera alcançar por meio desse tipo de intervenção clínica é a criação de

novas alternativas para se lidar com o sofrimento gerado pela presença de uma inibição

reprimida. Ou, então, o que se espera é que o sistema self possa desempenhar sua função de

ego, não obstante o fundo de ansiedade que a acompanha. Trata-se, portanto, de uma tentativa

de “ampliação” dos agentes promotores de ajustamentos criativos.

É preciso muita atenção aqui, entrementes. O treinamento da função de ego no

consulente não é, para o terapeuta, a ocasião de aplicação de um saber ou concepção científica

previamente estabelecida. A clínica gestáltica da neurose não é - para o gestalt-terapeuta -

uma busca pelo saber. Trata-se, ao contrário, de uma “postura ética” de comprometimento

67

com aquilo que surge clinicamente como desvio, como manifestação senão da criatividade ao

menos da inibição do consulente no sistema self. O que conduz o gestalt-terapeuta não à

consistência das formulações imaginárias de seu consulente, mas à “forma” de manifestação

daquilo que se repete, seja isso uma inibição reprimida, seja isso um hábito espontâneo.

A prática do gestalt-terapeuta não se pauta pelos valores, ideais e fantasias produzidos

na relação terapêutica pela função personalidade. O que significa dizer, o gestalt-terapeuta

não se orienta pelos conteúdos, de ordem semântica, elaborados no falatório do consulente, ou

pelos cerimoniais sociais articulados na gestualidade esteriotipada que o consulente

desempenha na sessão ou fora dela. Prender-se às estórias, ou corresponder aos expedientes

de reciprocidade sancionados pela conduta social significa fazer vista grossa para a “forma”

ou “gestalt” de evitação que, inconscientemente, o consulente articula por meio de seu

discurso e de seu comportamento social. Razão pela qual, o que se espera do gestalt-terapeuta

é que ele possa se deixar capturar pelas palavras e pelos gestos do consulente à medida que

eles caracterizem, no aqui-agora, a presença ou a ausência de uma inibição reprimida, ou de

um ego criador. Dessa feita, dizem Perls, Hefferline e Goodman (1951, p. 46), a Gestalt-

terapia é a analítica de uma “estrutura” de comportamento, de um “modo” de relação social,

de um “estilo” de criação ou evitação, pelo qual os consulentes possam se responsabilizar.

(...) Terapia como análise gestáltica
A terapia consiste, assim, em analisar a estrutura interna da experiência concreta,
qualquer que seja o grau de contato desta; não tanto o que está sendo experienciado,
relembrado, feito, dito, etc., mas a maneira como o que está sendo relembrado é
relembrado, ou como o que é dito é dito, com que expressão facial, tom de voz,
sintaxe, postura, afeto, omissão, consideração ou falta de consideração pela outra
pessoa etc.

A análise do “como”, entrementes, não pode estar a serviço de uma tentativa de “dar sentido”

ou “encontrar a razão” que dê “consistência” ao que está sendo explicitado pelo consulente no

âmbito da relação terapêutica. Ou, então, a pontuação do “como” não se faz em benefício da

solução da “dúvida do terapeuta”. O atendimento a essas expectativas não faria mais que

sedimentar um conhecimento, não faria mais que “caracterizar” uma personalidade, com a

qual, talvez, o terapeuta pudesse atenuar sua própria ansiedade. Ao contrário, a pontuação do

“como”, que é no aqui/agora da sessão terapêutica, destina-se a mostrar isso que surge como

fissura, como ruptura na consistência do relato ou da ação do consulente. Pontua-se o “como”

tal como se pontua um inesperado, tal como se pontua um desvio, uma deriva. Aliás, “deriva”

é uma forma de traduzir o termo “clínica”, o qual não se restringe àquilo que está designado

pelo adjetivo grego klinikós – que é aquilo que se exerce junto ao leito. Clínica também vem

68

da expressão latina clinamen, tal como empregada na física epicurista para designar o desvio

espontâneo que sofrem os átomos e que lhes propicia o encontro e a aglomeração. Enquanto

intervenção “clínica” desempenhada nos termos de um dito, de um gesto ou de um ato, a

pontuação terapêutica do “como” é: a demarcação daquilo que, no discurso ou na ação

estabelecidos pelo consulente, revela-se como deriva ora em direção à ansiedade característica

da ação da inibição reprimida sobre um excitamento inibido ora em direção à angústia da

criação. Por outras palavras, a pontuação terapêutica do “como” é a demarcação daquilo que

surge na sessão psicoterapêutica como outrem, como alteridade radical aos valores do

consulente e às próprias concepções científicas do terapeuta.

4.2 – PSICOTERAPIA COMO EXPERIÊNCIA DE CAMPO E A

PERCEPÇÃO DO “OUTRO”

As pontuações terapêuticas do “como uma função de ego cria (?)”, ou do “como uma

inibição reprimida interrompe um excitamento (?)” pressupõem existir, entre o terapeuta e o

consulente, uma sorte de comunidade operativa, a partir da qual aquelas possam ser

estabelecidas. O terapeuta trabalha a partir da perspectiva de que, entre ele e o consulente,

exista um só sistema self, uma só configuração de campo, relativamente à qual, cada ato (seja

do terapeuta ou do consulente) constitui uma individuação, uma manifestação da função de

ego (ou, no caso dos ajustamentos neuróticos e das formações reativas, da inibição reprimida).

O que significa dizer que, para o olhar clínico, o terapeuta e o consulente não são dois, mas,

nem por isso, constituem uma unidade. Em verdade, a situação clínica é a vivência de uma

situação de contato, de um a priori de correlação, em que verificamos uma mútua

“contaminação”, a constituição de uma “estranha” indivisão, de uma indivisão “ambígua”,

porquanto não diz respeito nem a um, nem a dois. Ela não se confunde com a comunhão

imaginária que podemos estabelecer em torno de um objeto, de um valor ou norma. Ela não é

produto da função personalidade. Não se trata, por conseguinte, de uma relação de

“transferência” do consulente em relação ao terapeuta, ou de “contratransferência” deste em

relação àquele. As relações transferenciais pressupõem a existência de um “segundo termo”,

de um analista “exterior”, que tanto pode confirmar (na contratransferência) como frustrar

(por meio da interpretação) a demanda imaginária, personalista, que vem do consulente. A

69

Gestalt-terapia não sustenta esse lugar “exterior”15. O que se espera do gestalt-terapeuta é que

ele possa imergir na situação clínica, se deixar por ela “contaminar”, poder por ela ser

descentrado, para - a partir desse “não-lugar” - dar vez ao que surgir como inesperado. Ora,

mas o que é tal situação? O que é essa indivisão “estranha”, “ambígua” a partir da qual se

estabelece a intervenção clínica? Para responder essas questões, recorremos mais uma vez à

filosofia merleau-pontyana, especialmente à sua teoria da intersubjetivade. Para tanto,

tecemos breves comentários sobre o modelo ontológico a partir do qual Merleau-Ponty pensa

aquela teoria.

4.2.1 – Campo como ser de indivisão: uma leitura merleau-pontyana

Há, na filosofia de Merleau-Ponty, um movimento que vai do projeto de restituição do

mundo da percepção – descrito na Fenomenologia da percepção (1945) - aos temas da

verdade e da comunicação com outrem – os quais se tornaram “figura” nos textos escritos a

partir de 1945. E é o próprio Merleau-Ponty quem nos alerta para isso. Em 1947, na obra Le

métaphysique dans l’Homme, ele diz que “seria oportuno (...) descrever com precisão a

passagem da fé perceptiva à verdade explícita tal como a encontramos ao nível da linguagem,

do conceito e do mundo cultural”. O que implicaria, segundo ele, “um trabalho consagrado à

Origem da Verdade” (1966, p. 115). Da mesma forma, em 1952, no texto de candidatura ao

Collège de France, Merleau-Ponty esclarece que: em seus “dois primeiros trabalhos ele

procurou restituir o mundo da percepção”, ao passo que, dali em diante, tratar-se-ia de mostrar

“como a comunicação com outrem e o pensamento retomam e ultrapassam a percepção que

nos iniciou na verdade” (1962, p. 402). Mas, esse movimento, conforme acreditamos, é menos

o indício de um abandono das primeiras teses e mais a indicação de uma radicalização daquilo

15

Podemos admitir que, do ponto de vista dos efeitos, a transferência na psicanálise visa consolidar um campo
entre o analista e o analisando. Freud até falou de uma comunicação de “inconsciente para inconsciente”. Mas,
quando se trata de descrever essa “comunicação”, os psicanalistas clássicos apresentam-na como se ela fosse
uma relação entre duas pessoas, onde uma delas se furtaria ao ofício de corresponder. Não apenas isso, eles a
descrevem como se, entre essas duas pessoas, estaria se caracterizando o retorno de uma cena primitiva, de uma
relação parental arcaica: neurose de transferência. Para os fundadores da Gestalt-terapia, não é impossível, ao
contrário, é até freqüente que relações parentais figurem nas relações de campo que constituem uma sessão
terapêutica. Mas não é a cena que vincula analista e analisante. Aliás, quando se estabelece o vínculo, não se
pode mais dizer ao certo quem é quem. Seria preciso dizer que aquilo que constitui o vínculo – aquilo que
efetivamente se “transfere” - tem relação com a despersonalização de ambos, porquanto nem a inibição
reprimida nem a função id (os quais, na linguagem psicanalítica mais ou menos corresponderiam ao inconsciente
e à pulsão) são pessoais. E é desse lugar, onde não há nem um nem dois, que uma “comunicação” se estabelece,
duas funções de ego passam a trocar de papel, até que a função de ego no consulente possa criar sozinha. Aliás,
criação é o nome da comunicação que se estabelece em regime de terapia gestáltica. Tal criação pode usar como
matéria prima tanto as cenas parentais evocadas pelo consulente, como o barulho do vento sacudindo as
persianas da janela do consultório. O importante é que sejam a ocasião para que as funções de ego implicadas
possam ir além de suas próprias inibições reprimidas – e não necessariamente contra elas.

70

que, nelas, já estava em obra, precisamente: a elaboração de uma nova ontologia que viesse

sobrepujar o relativismo e o solipsismo resultantes, respectivamente, das incomensuráveis

tentativas de objetivação da vida perceptiva, por parte das ciências, e das audaciosas tentativas

de redução da vida perceptiva às representações do sujeito, por parte da filosofia. Nesse

sentido, é como se, nos textos posteriores, Merleau-Ponty tivesse compreendido que, para

além da descrição fenomenológica de um mundo não apenas primeiro, mas, também, fundante

da verdade tardiamente capturada pela ciência e pela reflexão, fosse preciso mostrar a maneira

pela qual esse mundo dar-se-ia a conhecer como origem daquela verdade. Eis então que

Merleau-Ponty propõe uma descrição da dinâmica específica não do mundo da percepção ou

do corpo perceptivo, mas, sim, da “experiência” tomada como “ser de indivisão” ou “carne”.

Ao descrever a noção de carne como ser de indivisão, Merleau-Ponty não está

dissertando sobre uma coisa, sobre um ente: o ser de indivisão não é um subsistente e não

subsume, como categorias ou predicados seus, as noções de eu e de semelhante, por exemplo.

O ser de indivisão designa, sim, a generalização daquela constatação advinda, primeiramente,

da experiência perceptiva, mas não exclusivamente dela, e segundo a qual: não posso perceber

senão aquilo “onde”, em certa medida, eu mesmo já esteja situado: o que faz de mim um

sensível como o mundo e como os outros, mas também um estranho, porquanto, onde estou

situado, não posso me sentir sentindo, assim como não posso sentir o que os semelhantes

sentem de mim.

Para Merleau-Ponty, de fato, se é verdade que “meu corpo como coisa visível está

contido no grande espetáculo”, se é verdade, da mesma forma, que há um “corpo vidente” que

“subtende esse corpo visível e todos os visíveis”, havendo “recíproca inserção e

entrelaçamento de um no outro”, a ponto de podermos dizer que os dois são como “dois

círculos, ou dois turbilhões, ou duas esferas concêntricas quando vivo ingenuamente e, desde

que me interrogue, levemente descentrados um em relação ao outro” (1964 a, p. 182), também

é verdade, por outro lado, que essa recíproca inserção e entrelaçamento configuram uma sorte

de “reversibilidade sempre iminente e nunca realizada de fato” (1964 a, p. 194). Ao mesmo

tempo em que participo do mundo visível, sou dotado de uma invisibilidade que me impede

de ser coincidência comigo mesmo e com o mundo. Não obstante minha generalidade

sensível, subsiste uma impossibilidade de fato, uma alteridade radical, que é a forma como

Merleau-Ponty fala do estranho: invisibilidade de mim e do próximo como videntes,

invisibilidade do mundo como origem.

É preciso compreender bem essa noção merleau-pontyana de “invisibilidade”. Na

71

Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty já falava dela, embora a denominasse de outra

forma: corpo habitual (razão pela qual, conforme pensamos, a noção de invisibilidade pode

ser relacionada com a noção gestáltica de função id, que é domínio daquilo que está retido tal

qual hábito). Por meio da noção de invisibilidade, Merleau-Ponty agora amplia a noção de

corpo habitual e a emprega num sentido ontológico. Não se trata de algo que, em algum

momento, foi visto e deixou de ser. Não se trata, portanto, de uma invisibilidade objetiva, de

uma visibilidade provisória ofuscada por outra imagem visível. “Princípio: não considerar o

invisível como outro visível “possível”, ou um “possível” visível para outro” (1964 a, p. 282).

Conforme Merleau-Ponty (1964 a, p. 300):

Quando digo que todo visível é invisível, que a percepção é impercepção, que a
consciência tem um “punctum caecum”, que ver é sempre ver mais do que se vê – é
preciso não compreender isso no sentido de contradição: - É preciso não imaginar que
ajunto ao visível perfeitamente definido como em-Si um não-visível (que seria apenas
ausência objetiva) isto é, presença objetiva alhures, num alhures em si) – É preciso
compreender que é a visibilidade mesma quem comporta uma não-visibilidade.

As coisas visíveis, assim como minha própria existência visível estão impregnadas de uma
não-visibilidade que, a sua vez:

não ocorre porque eu seja espírito, uma ‘consciência’, uma espiritualidade positivas,
existência como consciência (isto é, como puro aparecer-se), mas porque sou aquele
que 1) tem um mundo visível, i. e., um corpo dimensional e participável, 2) i. e., um
corpo visível para si próprio, 3) e portanto, finalmente, uma presença a si que é
ausência de si. (1964 a, p. 303)

Vivo, na minha intimidade, “uma transcendência sem máscara ôntica” (1964 a, p. 282-3), um

distanciamento sem medida objetiva, que faz de mim um estranho para mim, uma ausência

que conta. Tal ausência jamais se sobrepõe à visibilidade de meu corpo, e vice-versa; o que

me torna comparável ao mundo e aos outros homens, em quem sempre reencontro essa

comunidade ambígua, sempre prometida, mas jamais realizada objetivamente, entre o visível

e o invisível. As coisas e muito especialmente os outros homens exprimem essa mesma

ambigüidade, de modo que eu me sinta, como eles, um ser ao mesmo tempo visível e

invisível, o que, por fim, impede qualquer forma de síntese ou identidade.

Não há coincidência entre o vidente e o visível. Mas um empresta do outro, toma ou
invade o outro, cruza-se com ele, está em quiasma com o outro. (1964 a, p. 314)

O que significa apenas dizer “que toda percepção é forrada por uma contrapercepção (...), é

ato de duas faces, não mais se sabe quem fala e quem escuta.” (1964 a, p. 318). Eis por que

razão, para Merleau-Ponty, o ser se comunica, paradoxalmente, com o nada. “O sensível, o

72

visível deve ser para mim a ocasião de dizer o que é o nada – O nada não é nada mais (nem

nada menos) que o invisível” (1964 a, p. 311), essa forma de apresentação da alteridade que

não faz concessões aos modelos objetivos, que está mais além deles, porquanto não toma o

outro a partir de uma fórmula natural ou antropológica.

No coração do ser carnal, encontramos uma ambigüidade que consiste no fato de a

percepção ser, ao mesmo tempo, familiaridade e estranhamento, identificação e diferença. Tal

permite compreender qual é, enfim, a indivisão de que fala Merleau-Ponty, precisamente: a

indivisão entre o idêntico e o diferente, entre o sensível e não sensível, entre o presente e o

ausente, enfim, entre o “visível” e o “invisível”. Há entre eles múltiplas “possibilidades” de

quiasma, uma sorte de implicação formal (Gestalthaft), mas, jamais, coincidência.

Em que sentido esses múltiplos quiasmas não fazem mais do que um só: não no
sentido da síntese, da unidade originariamente sintética, mas sempre no sentido de
Uebertragung [transposição], da imbricação, da irradiação do ser (...): mesmo não no
sentido da idealidade nem da identidade real. O mesmo no sentido estrutural: mesma
membrura, mesma Gestalthaft, o mesmo no sentido de abertura de outra dimensão do
“mesmo” ser (...): daí no total um mundo que não é nem um nem 2 no sentido objetivo
– que é pré-individual, generalidade – (1964 a, p. 314-15).

É importante frisar que, em momento algum, com a noção de carne como ser de indivisão,

Merleau-Ponty propõe a coincidência entre o “visível” e o “invisível”, entre o corpo visível de

meu próximo e o poder vidente que habita o meu. Trata-se apenas de mostrar como, na

extremidade de meu corpo, se pode haver alguém assim como um outro vidente, é porque a

visibilidade do próximo também é a minha, a de meu corpo; assim como sua invisibilidade,

ela acomete também a mim, que não posso me ver vendo. No coração da comunidade

formada por mim, pelo mundo e pelo próximo, há que se admitir uma alteridade radical, a

vigência de um outro não objetivo: que é a invisibilidade de nós mesmos como videntes, a

invisibilidade de um olhar outro que me atinge sem que eu tenha condições de dizer de onde

tenha partido, a ponto de certos pintores, conforme a citação que Merleau-Ponty toma

emprestado a André Marchand, sentirem repetidas vezes, no interior de uma floresta, “que

não era eu quem a olhava, senti, certos dias, que eram as árvores que me olhavam, que me

falavam” (Marchand apud Merleau-Ponty, 2004, p. 22)

Carne como ser de indivisão não designa um valor imaginário, uma produção da

função personalidade, para usarmos uma terminologia gestáltica. Ao descrever a carnalidade,

Merleau-Ponty não quer caracterizar a substância ou a operação a partir da qual se pode

compreender a emergência do eu e do semelhante. Ele quer assinalar a impossibilidade dessa

gênese e assumir, como elementos constitutivos da definição do eu e do próximo, essa

73

cumplicidade no indeterminado. Há, nesse sentido, uma estranheza fundamental na origem de

minha existência, estranheza essa à qual meu próximo vem sempre retomar, porquanto

exprime algo que me é próprio, uma presença à qual sou capaz de perceber, mas que ainda

assim não se reduz a mim. O hábito, tal como Merleau-Ponty o descrevia na Fenomenologia

da percepção, é apenas uma faceta dessa estranheza íntima e compartilhada. Analogamente, a

função id - acrescentamos nós - é a dimensão invisível dessa carnalidade que é o sistema self.

E é do ponto de vista da função id (como invisibilidade) que se torna possível, na experiência

clínica, a percepção do outro, do outro que somos nós, do outro que vem até nós partindo do

corpo de nosso semelhante.

4.2.2 – A percepção de outrem

Conforme Merleau-Ponty, a percepção do próximo é muito mais do que o ato

de desvelar, num corpo que está diante de mim, a presença de um homem, a presença de um

valor positivo em meu universo antropológico. O próximo assim visado é apenas um

“objeto”, um “lugar” que “meu olhar esmaga e esvazia de todo ‘interior’” (MERLEAU-

PONTY, 1969, p. 186). Numa linguagem gestáltica, tratar-se-ia apenas de uma

“personalidade”. Sem dúvida, o corpo dele está diante de mim, “mas, quanto a ele, leva uma

singular existência: entre mim que penso e esse corpo, ou melhor, junto a mim, a meu lado,

ele é como uma réplica de mim mesmo, um duplo errante, ele antes freqüenta meus arredores

do que neles aparece (...)” (MERLEAU-PONTY, 1969, p. 186). Se eu tento fixá-lo, ele

desaparece, escoa para um lugar ignorado, sem cessar de existir para mim. Por isso, meu

próximo não é simplesmente alguém; para além de sua eventual pessoalidade, ele é uma

presença impessoal, que participa de meu mundo, sem que eu possa dizer que ele seja meu.

Há nele uma alteridade radical, que faz dele, mais do que minha réplica, “outrem”.

A apresentação do invisível como “outrem” constitui o capítulo mais importante da

filosofia da intersubjetividade proposta por Merleau-Ponty a partir dos anos 50. Por meio

dela, Merleau-Ponty tenta esclarecer em que sentido o próximo pode coexistir comigo sem se

reduzir a uma formulação minha. Enquanto outrem, o próximo é diferente de mim, é invisível

para mim, e sempre o será. Mas essa alteridade radical só é alteridade porquanto ela se

manifesta em um visível como eu, em um corpo habitante de um mesmo mundo sensível. Eis

em que sentido, dirá Merleau-Ponty, não devemos entender “outrem” como uma consciência,

mas como o “habitante de um corpo, e através dele, do mundo” (1964 a, p. 263). Ora, se

74

pergunta Merleau-Ponty, “onde está o outro neste corpo que vejo?” (1964 a, p. 263). Ao que

responde:

Ele é (como o sentido da frase) imanente ao corpo (não se pode destacá-lo para pô-lo à
parte) e, contudo, é mais do que a soma dos signos ou significações por ela
veiculados. É aquilo de que as significações são sempre imagem parcial e não
exaustiva, - e que contudo atesta estar presente por inteiro em cada uma delas.
Encarnação inacabada sempre em curso (1964 a, 263).

Enquanto horizonte invisível desse corpo que percebo, outrem não é uma ocorrência objetiva,

mas uma Gestalt. O que significa dizer que ele é um “princípio de distribuição, o pivô de um

sistema de equivalências”, o “fundo falso do vivido”, por cujo meio me transporto para outras

possibilidades, sem jamais atingi-lo (1964 a, p. 258-9). Nesse particular, Merleau-Ponty

ilustra a experiência de “outrem” com a experiência da comunicação linguageira. Mesmo na

Fenomenologia da percepção (1945), a linguagem nunca foi para Merleau-Ponty uma

vivência de coincidência. Ao contrário, ela é a própria ambivalência do processo de

diferenciação estabelecido por cada gesto. Se os gestos funcionam como meio de

comunicação, tal não se deve a que estabilizem a presença do interlocutor: se deve antes a que

possam marcar uma diferença, um “outro” que não pode ser alcançado, mas que estabelece a

ocasião do próximo gesto, da próxima tentativa, da próxima interrogação. Há, nesse sentido,

uma espontaneidade no campo linguageiro, a qual consiste: na abertura que cada tentativa de

fechamento exprime, na ausência que cada gesto atualiza, na possibilidade que cada ato

inaugura.

No texto “A percepção do outro e o diálogo”, incluído na publicação póstuma “A

prosa do mundo” (1969), Merleau-Ponty se esforça para mostrar que essa espontaneidade que

não vem de mim já está preparada para mim desde que eu comecei a existir, no campo amplo

de minha percepção. Trata-se de uma reversibilidade que é muito mais (ou muito menos) que

o consórcio entre irmãos. Trata-se da paradoxal vivência de um negativo, de uma ausência, de

um duplo errante. Não posso localizar esse negativo em lugar algum, nem dentro, nem fora,

nem à frente ou atrás. Ainda assim, posso experimentá-lo como uma sorte de descentramento,

decaída do meu ser em um domínio de generalidade onde não há mais centro. Se Merleau-

Ponty ainda fala aqui de uma familiaridade, trata-se de uma familiaridade estranha, em que

estou destituído de minha posição central. E já não se trata aqui apenas do lugar da visão. Não

há, de fato, harmonia ou desarmonia de princípio. Se Merleau-Ponty fala de uma significação

transferível, de uma situação comum, não se trata de uma consideração objetiva a cerca de si,

75

do próximo ou do mundo. Ao contrário, o que se transfere é justamente a vivência de

estranhamento, o paradoxo de um mundo que não é só meu, mas que nem por isso me torna

outro.

A formulação de Merleau-Ponty é: “eu e o outro somos como dois círculos quase

concêntricos, e que se distinguem por uma leve e misteriosa diferença” (1969, p. 186). Esse

parentesco – note-se bem, parentesco investido de uma leve diferença – “é o que nos permitirá

compreender a relação com o outro, que de outra forma é inconcebível se procuro abordar o

outro de frente e por seu lado escarpado” (1969, p.187-8). Ora, o outro a que Merleau-Ponty

se refere não é o outro imaginário, objetivado, personificado. É, antes, o outro que “não está

em parte alguma no ser” (1969, p. 190). Mais do que isso, é o outro eu-mesmo, e que, nesse

sentido, exprime um eu que é outro: um eu que é generalizado e que encontro toda vez que me

ocupo de meu corpo ou presto atenção nos meus próprios paradoxos. Trata-se, novamente

aqui, do invisível, agora apresentado como “outrem”: “quando digo que vejo o outro,

acontece sobretudo que objetivo meu corpo, outrem é o horizonte ou o outro lado dessa

experiência – é assim que se fala ao ‘outro’, embora só se tenha relação consigo” (1964 a, p.

278).

Com esse tipo de proposição, Merleau-Ponty não está querendo fazer a apologia do

solipsismo. Aliás, ele sequer está tratando do problema da solidão da autoconsciência. Se eu

percebo, junto ao meu próximo, uma intenção que me atinge, então já não se pode mais falar

de solidão. Razão pela qual, com a proposição da noção de outrem, Merleau-Ponty visa, sim,

uma “transformação do problema” da vivência da alteridade. Merleau-Ponty se propõe

deslocar essa discussão de um plano antropológico para um plano ontológico. Por isso, vai

dizer, é preciso compreender que:

outrem não é tanto uma liberdade vista de fora como destino e fatalidade, um sujeito
rival de outro sujeito, mas um prisioneiro no circuito que o liga ao mundo, como nós
próprios, e assim também no circuito que nos liga a nós (MERLEAU-PONTY, 1964
a, p. 322).

Tão verdadeiro quanto o fato de o próximo revelar a existência de outrem com o qual não

posso coincidir, é o fato de que essa alteridade radical é alteridade em meu mundo, em meu

campo de possibilidades existenciais. Razão pela qual, a noção de outrem nos faz perceber a

existência de um “mundo que nos é comum”, que é “intermundo”. Nesse sentido, frente ao

próximo e às coisas, compreendo que “há transitivismo por generalidade – e mesmo a

liberdade tem sua generalidade” (1964 a, p. 323). Eis por que Merleau-Ponty pode dizer,

76

numa passagem em que estabelece uma espécie de inventário de sua filosofia da

intersubjetividade: “o que trago de novo ao problema do mesmo e do outro? Isso: que o

mesmo seja o outro do outro, e a identidade diferença da diferença.” (1964 a, p. 318). Em

Merleau-Ponty, a intersubjetividade é uma dialética sem síntese.

4.2.3 – Outrem como Tu

Na obra Gestalt Terapia, quando seus autores se referem àquilo que poderia ser

considerado uma “teoria da intersubjetividade” aplicável à clínica, é à obra EU E TU de

Martin Buber (1923) que eles se reportam. Eles não estabelecem, em momento algum, um

estudo aprofundado sobre a “dialógica” nos termos da qual Buber formula, mais que uma

ontologia da relação, uma “antropologia do inter-humano”, conforme o dizer de Von Zuben

(1977, p. XL). Ainda assim, se referem às noções de EU, TU, ISSO para caracterizar as

propriedades do sistema-self16. Mais precisamente, Perls, Hefferline e Goodman lêem as

noções de EU, TU, ISSO como se elas pudessem designar, de um ponto de vista

antropológico: o modo temporal segundo o qual, na fronteira de contato e junto a um dado

material, a função de ego retoma um fundo de passado em proveito das criações futuras e da

sedimentação das identidades objetivas. Por conseguinte, é como se os fundadores da Gestalt-

terapia reconhecessem, nas noções buberianas, o formato temporal do sistema self entendido

como um evento intersubjetivo. Esse reconhecimento, evidentemente, não pode ser sustentado

a partir do texto do próprio Buber – ao menos explicitamente. Mas não é de todo impensável.

Afinal, conforme afirma Von Zuben, em sua introdução à tradução brasileira da obra Eu e Tu

de Martin Buber (1923):

(a) presença do TU – subjacente no fluxo constante da relação EU-TU e no
relacionamento EU-ISSO, e mesmo durante o relacionamento EU-ISSO – evoca-nos a
idéia de ‘campo de presença’ a que se refere Merleau-Ponty na Fenomenologia da
Percepção (VON ZUBEN, 1977, p. LXV).

E talvez seja essa leitura merleau-pontyana e, por conseguinte, “temporalizante”, o que nos

ajudará a compreender em que sentido, para Perls, Hefferline e Goodman: diferentemente do

ISSO (que “é a sensação dos materiais, dos anseios e do fundo”), diferentemente do EU (que

16

Não é nosso propósito fazer o comentário das noções buberianas de EU, TU e ISSO, ou das palavras
princípios no interior das quais estão articuladas como expressão propriamente humana de nosso ser no mundo.
Para tanto, recomendamos os diferentes pontos de vista que podemos ler no artigo de Levinas sobre Buber e
Gabriel Marcel (1978), na Introdução à tradução brasileira da obra EU E TU (BUBER, 1923) estabelecida por
Von Zuben (1977), ou , ainda, nos trabalhos de Sidekum (1979) e Holanda (1998).

77

“é tomar as providências e fazer as identificações e as alienações progressivas”), o TU “é o

caráter direcionado do interesse” (PERLS, HEFFERLINE e GOODMAN, 1951, p. 183). Ora,

o que é o caráter direcionado do interesse? O que isso tem a ver com o tempo?

A noção de “campo de presença”, conforme vimos em capítulos anteriores, diz

respeito ao modo temporal segundo o qual, em torno de uma tensão material compreendida

como dado atual, arma-se um duplo horizonte de co-presenças que exercem função naquele

dado. Por um lado, enquanto horizonte de passado, i) nós temos a co-presença de campos de

presença que já não são mais atuais e que permaneceram retidos como fundo de passado. Esse

fundo, evidentemente, não se confunde com uma sorte de representação daquilo que deixou

de ser atual. Trata-se, ao contrário, de uma espontaneidade, de uma “forma” viva que se

“repete” na atualidade do dado como orientação vinda do passado. Ou, então, no caso de um

fundo de passado reprimido, trata-se de uma forma inibitória que, apesar de anônima, retorna

para interromper a expansão de uma tensão material não realizada (situação inacabada). Por

outro lado, enquanto horizonte de futuro, ii) nós temos a co-presença de “possibilidades de

transformação” da história que repetimos desde o passado. Tais possibilidades, entrementes,

não vêem do próprio passado que estamos a repetir, mas de algo que se cria junto ao próprio

dado atual. De sorte que, junto ao dado, temos também um duplo horizonte de diferenciação

ou estranhamento, que é o passado e o futuro. Eles são manifestações de algo que não

podemos dominar completamente, mas por cujo meio, ao mesmo tempo em que nos

conservamos (como repetição), nos ampliamos (como criação). Por outras palavras, futuro e

passado são uma espécie de alteridade de nós mesmos, produzida a cada vivência como o

duplo horizonte presuntivo para onde nossa existência se transcende, apresente-se tal

horizonte como origem ou como expectativa.

Ora, também em Buber nós encontramos a descrição da co-presença de uma alteridade

irredutível. Trata-se da noção de TU. Em sua obra EU e TU, Buber (1923, p. 31) descreve o

TU como a presença nostálgica de um vínculo originário - de onde eu mesmo provim - e que

permanece no horizonte de minhas formas de inserção mundanas. Trata-se de algo que,

mesmo tendo sido estabelecido no passado, não me incita a retornar, mas, sim, a prospectar.

A vida pré-natal das crianças é um puro vínculo natural, um afluxo de um para outro,
uma inter-ação corporal na qual o horizonte vital do ente em devir parece estar inscrito
de um modo singular no horizonte do ente que o carrega, e entretanto, parece também
não estar aí inscrito, pois não é somente no seio de sua mãe humana que ele repousa.
Este vínculo é tão cósmico que se tem a impressão de estar diante de uma
interpretação imperfeita de uma inscrição primitiva, quando se lê numa linguagem
mítica judaica que o homem conheceu o universo no seio materno, mas que ao nascer
tudo caiu no esquecimento. E este vínculo permanece nele como uma imagem secreta

78

de seu desejo. Não como se sua nostalgia significasse um anseio de volta, como
prescrevem aqueles que vêem no espírito, por eles confundido com o intelecto, um
simples parasita da natureza. Ao contrário, é a nostalgia da procura do vínculo
cósmico do ser que se desabrocha ao espírito com seu TU verdadeiro (BUBER, 1923,
p . 2 8 ).

Para Buber, o TU não é alguém, mas uma nostalgia que procura preencher-se, um

acontecimento originário que retorna do passado ao presente como aquilo que me lança ao

futuro. Ainda conforme Buber (1923, p. 14): o TU é a “presença” permanente da “relação”

constitutiva de meu ser, “relação” essa que é meu verdadeiro a priori: “(n)o começo é a

relação” (1923, p. 20). Eis por que Buber vai se referir ao TU primeiramente nos termos de

uma “palavra-princípio”, de uma Grundwort que funda minha existência inter-humana,

precisamente, a palavra-princípio EU-TU. Enquanto palavra-princípio EU-TU, o TU não é

algo diferente de mim, tampouco alguém idêntico. Trata-se da indistinção de nossos seres

como princípio, indistinção essa que permanece como horizonte desejado mesmo depois de

haver se estabelecido nossa separação, nossa instituição como objetividades no campo da

palavra-princípio EU-ISSO17.

O TU, por conseguinte, não se confunde com a apresentação empírica que posso

testemunhar relativamente aos semelhantes. O TU, enquanto tal, não é algo ou alguém

experienciável.

“(a)quele que diz TU não tem coisa alguma por objeto. [...] Na medida em que se
profere o TU, coisa alguma existe. O TU não se confina a nada. Quem diz TU não
possui coisa alguma, não possui nada. Ele permanece em relação” (1923, p. 5)

Ou, ainda:

Que experiência pode-se então ter do TU? Nenhuma, pois não se pode experienciá-lo.
O que se sabe então a respeito do TU? Somente tudo, pois, não se sabe, a seu respeito,
nada de parcial. Eu não experiencio o homem a quem digo TU. Eu entro em relação
com ele no santuário da palavra-princípio. Somente quando saio daí posso
experienciá-lo novamente. A experiência é distanciamento do TU” (1923, p.10)

O TU é aquele a quem só posso “encontrar” em regime de “relação”. Só posso “encontrá-lo”

17

Conforme Buber, “O EU surge da decomposição das vivências primordiais, provém das palavras originais
vitais, o EU-atuando-TU e TU-atuando-EU, após a substantivação e a hipóstase do particípio. [...] Assim se
manifesta, na história intelectual do primitivo, a diferença fundamental, entre as duas palavras-princípio. Já no
evento primordial da relação, ele profere a palavra-princípio EU-TU de um modo natural, anterior a qualquer
forma, sem ter-se conhecido como EU, enquanto que a palavra princípio EU-ISSO torna-se possível, através
desse conhecimento, através da separação do Eu. [...] A primeira palavra-princípio EU-TU decompõe-se de fato,
em um EU e em um TU, mas não proveio de sua justaposição, é anterior ao EU. A segunda, o EU-ISSO, surgiu
da justaposição do EU e ISSO, é posterior ao EU”(BUBER, 1923, p. 25). Um pouco adiante, acrescenta Buber:
“A verdadeira compreensão destes fenômenos (...) só pode ser atingida, na medida em que, quando observados e
examinados, for levada em consideração sua origem cósmica e meta-cósmica, a saber, a saída do mundo
primordial indiviso, não formado ainda, de onde o indivíduo físico já se desligou pelo nascimento, mas não ainda
o indvíduo corporal, integral, atualizado que só pode realizar esta passagem gradualmente, à medida que entra
nas relações” (1923, p. 32).

79

no face-a-face da palavra princípio, onde, paradoxalmente, não estou mais investido do poder

objetivante, por cujo meio poderia reconhecer nele uma coisa, uma qualidade, um modo de

ser... Ou, então: “

(o) homem não é uma coisa entre coisas ou formado por coisas quando, estando eu
presente diante dele, que já é meu TU, endereço-lhe a palavra-princípio. Ele não é um
simples ELE ou ELA limitado por outros ELES ou ELAS, um ponto inscrito na rede
do universo de espaço e tempo. Ele não é uma qualidade, um modo de ser,
experienciável, descritível, um feixe flácido de qualidades definidas [...]. Posso extrair
a cor de seus cabelos, o matiz de suas palavras ou de sua bondade; devo fazer isso sem
cessar, porém ele já não é mais meu TU” (1923, p.10-11).

Tal como a noção merleau-pontyana de outrem, aparentemente, o TU descrito por Buber é a

co-presença de um passado que continuamos a visar como horizonte possível de nossas

existências. O TU buberiano é esse “invisível” que buscamos repetir no futuro como origem,

como hábito, como nosso estilo de ser.

Ora, os fundadores da Gestalt-terapia percebem que as noções buberianas, muito

especialmente a noção de TU, não têm em vista caracterizar uma transcendência empírica, um

dado material estrangeiro. Elas têm em vista, sim, pontuar a co-presença de uma relação

passada à qual podemos retomar. Trata-se de uma alteridade que, não obstante haver se

dissipado enquanto atualidade material, continua disponível como um fundo de passado e um

horizonte de expectativas. No interior do sistema self, a sua vez, essa alteridade não é mais

que o momento do “contato-final”. Nele, a função de ego é “descentrada” (nos termos de uma

“síntese de transição”) em proveito da abertura de um novo campo, junto ao qual o campo

anterior poderá ser satisfeito ou evitado (em se tratando de um ajustamento neurótico):

(...)Contato final: em contraste com um fundo de ambiente e corpo desprovidos de
interesse, o objetivo vívido é a figura e está em contato. Relaxa-se toda deliberação e
há uma ação espontânea unitária da percepção, do movimento e do sentimento. A
awareness está no seu ponto mais radiante, na figura do Tu (PERLS, HEFFERLINE e
GOODMAN, 1951, p. 208)

Eis aqui o “caráter direcionado do interesse”, a direção de transcendência do sistema-

awareness, o descentramento do self em proveito de um novo campo de presença, de um

campo de presença “outro”, enfim, que seja para minha atualidade um TU.

A noção de “TU”, por conseguinte, não designa - para Perls, Hefferline e Goodman - o

semelhante, mas aquilo que se produz em torno deste, precisamente, o escoamento da ação e

do pensamento em direção ao inesperado. Ou, então, o TU é esse invisível sempre mais além

do que está dado (como ISSO) e para onde a função de ego (como EU) se transcende. Ora,

como esse outrem como TU pode ser percebido no contexto da experiência clínica?

80

4.2.4 – O outro na experiência clínica

Também a experiência clínica é uma sorte de “ser de indivisão” entre aquilo que

terapeuta e consulente anunciam como “território comum”. Em parte, terapeuta e consulente

compartilham objetos, valores, rituais, enfim, representações “visíveis” daquilo que haveria

de dar unidade e consistência a cada qual (função personalidade). Ainda assim, eles nunca

constituem uma unidade de fato, a consumação de suas vidas numa coincidência plena, sem

diferenças. Ao contrário disso, eles são freqüentemente “descentrados” pelos efeitos

produzidos pelo discurso e pela ação que eles próprios estabelecem no contexto da sessão,

quais sejam aqueles efeitos: as manifestações comportamentais desses “invisíveis” que são a

inibição reprimida e as funções de id e de ego. A meta da experiência clínica – dessa proposta

ética de comprometimento com aquilo que faz derivar – é viabilizar a manifestação desses

invisíveis. O que exige, tanto do terapeuta quanto do consulente, uma postura de

disponibilidade, para não dizer passividade ao modo “como”: i) a inibição reprimida opera

com a ansiedade (situação inacabada) e ii) a função de ego cria a partir da angústia (função id

disponível). Por outras palavras, terapeuta e consulente são convocados à experiência de

percepção disso que, para cada qual, é “outro”, precisamente, suas próprias inibições, os

hábitos disponíveis e as ações inesperadas, criativas.

A disponibilidade ao “outro” não é, para o gestalt-terapeuta, uma postura de

cumplicidade em relação aos valores, objetos e rituais produzidos pelo consulente. Assumir

tal postura não seria mais que corroborar a “personalidade” com a qual o consulente se

identifica. A função personalidade, entrementes, não é o tema da clínica gestáltica dos

ajustamentos neuróticos. Razão pela qual, para o gestalt-terapeuta, o primeiro desafio a ser

enfrentado é a “suspensão” dos vínculos personalistas, em nome dos quais, nas mais das

vezes, o consulente “atua” – quando não o próprio terapeuta. Estabelecer essa suspensão

significa para o gestalt-terapeuta abrir mão da pretensão de “compreender”, “descobrir” e

“explicar” o que se apresenta na ação e no discurso do consulente. Mais do que isso, fazê-lo

implica abrir mão da pretensão de “cuidar”, “ajudar” ou “proteger” o consulente. O terapeuta

só pode compreender, descobrir e explicar aquilo que ele mesmo formula relativamente ao

seu consulente. Ele só pode ajudar e proteger aquilo que ele mesmo atribui a quem o consulta.

Em se tratando da ação e do discurso expressos pelo consulente, enfim, a escuta, o olhar, a

atenção do gestalt-terapeuta destina-se àquilo que, ao próprio gestalt-terapeuta, parece

81

“estranho”, àquilo que ao próprio gestalt-terapeuta parece “ameaçador”, ansiogênico ou

angustiante. Tal significa que, para o gestalt-terapeuta, a percepção do outro (junto aos

comportamentos desempenhados pelo consulente) paradoxalmente requer a percepção daquilo

que é outro em si próprio. Afinal, tanto quanto os valores imaginários compartilhados

enquanto função personalidade, a alteridade radical é um fenômeno de campo, é uma

generalidade, apenas que indeterminada, mas, ainda assim, transferível. O terapeuta tanto

pode testemunhá-la no semelhante quanto em si próprio. E é o advento dessa alteridade a

confirmação de que, finalmente, se está em terapia.

Isso não significa, entretanto, que o terapeuta possa coincidir com o outro, com aquilo

que nele mesmo é outro. Afinal, se estamos falando de algo que é outro, tal implica a

impossibilidade de coincidência. Nesse sentido, para o gestalt-terapeuta, a percepção do outro

é, simultaneamente, um deixar-se arrebatar por aquilo que, a partir do consulente, retorna a si

como perdição. Essa perdição, entretanto, não é a ocasião do fracasso da experiência

terapêutica gestáltica. Ao contrário, é sua condição. Afinal, é somente à medida que algo

indeterminado se manifesta que o esforço de criação pode estabelecer um deslocamento no

estado de coisas, uma transformação naquilo que se revelou, seja para o consulente seja para o

terapeuta. Por outras palavras, é somente à medida que o estranho se exprime nos

comportamentos do terapeuta e do consulente que funções de ego podem ser desempenhadas.

Para o gestalt-terapeuta, tal retomada da função de ego pode ser, por exemplo, a formulação

de uma pergunta naquele momento em que, por conta de algo que estivesse sendo dito ou

feito na sessão, ele próprio preferiria calar-se. Ou, então, pode ser o silenciar, no momento em

que as palavras poderiam aplacar a ansiedade que o invadira subitamente depois que um

inesperado se revelou no consulente. Ou, então, ela pode ser a pontuação de uma postura

corporal, o pedido para que o consulente repita uma frase, não obstante o próprio terapeuta

estar interessado no desfecho da estória que aquele esteja a relatar. À medida que o gestalt-

terapeuta assume o estranho que se manifesta nele, sua ação criativa surte no consulente um

efeito “outro”, descentra o consulente em suas garantias personalistas, convidando-o a criar.

Por conseqüência, tanto para o terapeuta quanto para o consulente, deixar-se descentrar pelo

“outro manifestado na sessão” é simultaneamente despertar a capacidade de criação, de

crescimento, mais além do que está assegurado, assimilado como personalidade, ou,

freqüentemente, reprimido como inibição.

O outro - que surge nas entrelinhas dos discursos e das ações desempenhados pelo

terapeuta e pelo consulente - não é um pensamento, uma ação ou um objeto empírico que

82

possamos rapidamente identificar. De um modo geral, o outro tem relação com algo que não

se deixa identificar, nem mesmo pelas categorias clínicas às quais o gestalt-terapeuta emprega

usualmente nas sessões de supervisão clínica. Trata-se antes da presença de hábitos, de estilos

de agir e de pensar, que atravessam a visibilidade dos comportamentos, exprimindo a co-

presença de um fundo invisível, ora em benefício de uma criação, ora em proveito da inibição

de situações inacabadas. O outro, nesse sentido, é, simultaneamente, inédito e repetido.

Inédito enquanto efeito produzido pelo comportamento atual, no qual se inscreve como bruma

misteriosa, anônima. Repetido porquanto seu anonimato é tributário de algo que se perdeu,

que não se mostra na atualidade do comportamento, mas que se exprime como horizonte de

passado, origem presumível, orientação herdada. Por outras palavras: os consulentes

produzem na sessão respostas nunca dantes vistas pelo gestalt-terapeuta; mas, ao mesmo

tempo, são respostas que desenham relações inatuais, como se estivessem a omitir ou

requisitar outros gestos, outras palavras, outros significantes que, por conseguinte, são

“intuídos” como faltantes, co-presentes, vindos de um lugar anônimo. Como o gestalt-

terapeuta os pode perceber?

É por meio de seu corpo – ou melhor, dos paradoxos de seu próprio corpo – que o

gestalt-terapeuta reconhece a vigência de uma alteridade no seio da experiência clínica. Mas

corpo aqui não é um conjunto de dispositivos anatômicos separados do mundo, ou,

simplesmente, o receptáculo de um poder espiritual. O corpo tem relação com a capacidade de

eu me fazer coisa entre as coisas, semelhante entre os semelhantes, mas, também, de me

“perceber” vidente, sujeito da percepção, tal qual outrem. O corpo, por conseguinte, é minha

ligação visível com o tecido do mundo, com cada região e momento da sessão terapêutica.

Mas, também, é a vivência de um estranho, de um ponto de fuga por onde a paisagem se

escoa, apresente-se essa vivência como região inalcançável de minha própria visibilidade,

apresente-se ela como invisibilidade do olhar que me atinge vindo do consulente. Na sessão

terapêutica, especificamente, o corpo é o movimento de descentramento em que o gestalt-

terapeuta é tragado toda vez que uma fala ou um gesto do consulente desempenham, alguns

metros à frente desse lugar invisível e silencioso que é o lugar do olhar e da escuta

terapêuticos, visíveis e invisíveis, sons e silêncios que o próprio gestalt-terapeuta pode

retomar por si, abrindo dessa maneira uma nova perspectiva sobre sua própria existência que,

dessa forma, já não será a mesma, será outra, a própria percepção do outro. É como se, em

função da capacidade para retomar em si mesmo paradoxos alheios, o gestalt-terapeuta visse

nascer, em si mesmo, uma presença outra, tal como, todos os dias, antes de dormir e em

83

função de nossa capacidade para imitar no leito nosso próprio sono, acabamos dominados

pelo adormecimento. Evidentemente, não se trata de dizer que o gestalt-terapeuta possa viver

algo tal qual o semelhante viveu. Trata-se apenas de dizer que o gestalt-terapeuta é capaz de

“perceber”, em si, algo que é vivido por outro e, nesse sentido, como algo outro. Ademais,

essa percepção do outro em si não dá ao gestalt-terapeuta uma espécie de poder sobre o que

ele próprio esteja a perceber. Assim como no sono cada qual perde o controle sobre si, na

sessão terapêutica, quando retoma o que se apresenta no semelhante, despertando dessa forma

a presença do outro em si, o gestalt-terapeuta perde suas certezas, suas garantias. Ele se

apercebe envolvido numa série de dúvidas, sentimentos estranhos, reações que não planejara,

enfim, vivências que “não” vão ao encontro de seus registros biográficos, de suas lembranças.

Se o terapeuta, nesse momento, tentasse evocar registros ou lembranças, ou por eles fosse

atravessado, ele não faria mais que interromper (volitiva ou inconscientemente) o contato com

essa coisa “outra”, com essa coisa “estranha” que advém a ele vinda do consulente. Se essa

coisa for uma ansiedade, é possível que o terapeuta esteja a perceber, a partir do que retomou

do consulente, um excitamento inibido. Obviamente, o terapeuta não saberá qual é esse

excitamento (porquanto nunca se sabe nada a respeito do que é outro). De todo modo, tal

manifestação abre possibilidades para que o terapeuta possa estabelecer a analítica do “como”

se dá a inibição, a analítica da inibição reprimida.

Eis o momento de o gestalt-terapeuta enfim fazer a intervenção, que não consiste

noutra coisa senão delegar ao consulente a tarefa de esclarecer, se apoderar, destruir ou

refazer os efeitos que, a partir desse mesmo consulente, o gestalt-terapeuta pôde perceber e

tão somente perceber. Sendo esse efeito uma ansiedade, a intervenção consiste na “frustração

habilidosa” (PERLS, 1973, p.105) do consulente, para que este crie novas formas de operação

com tal ansiedade; até que, com o passar das sessões: i) a inibição reprimida finalmente reaja,

não para pulverizar a ansiedade, mas para atacar a provocação, atacar o laço social

estabelecido entre o consulente e o terapeuta e ii) a função de ego no consulente possa

ultrapassar a própria inibição em proveito de novos ajustamentos criativos.

84

5.

ESTILO

AJUSTAMENTOS NEURÓTICOS

GESTÁLTICO

DE

INTERVENÇÃO

CLÍNICA

NOS

Não são poucos, mesmo entre os próprios praticantes da Gestalt-terapia, aqueles que

consideram tal abordagem clínica uma coleção de técnicas úteis à prática psicoterapêutica

concebida, entrementes, a partir de um outro referencial teórico, dado que a Gestalt-terapia

estaria desprovida de um. E não se trata aqui de fazer a refutação desse equívoco – uma vez

que não se pode argumentar contra aquilo que não faz sentido. Trata-se, antes, de mostrar o

quanto os recursos clínicos adotados pelos gestalt-terapeutas - que levam em conta o sentido

ético dessa prática clínica e, portanto, o primado daquilo que nela gera uma deriva,

precisamente, o “outro” - estão articulados com as reflexões que, já na fundação da

abordagem, se faziam presentes: a teoria do self, a teoria da inibição reprimida, a teoria da

neurose como perda das funções de ego para a fisiologia secundária, as quais, dentre outras,

são tão somente leituras possíveis daquilo que se estabelece espontaneamente na sessão

terapêutica. Ademais, é preciso acrescentar não haver, na história da Gestalt-terapia, qualquer

sorte de recomendação sobre quais técnicas usar ou evitar. Afinal, sendo a vivência clínica

uma experiência de campo em que se constitui um sistema-self e sendo a espontaneidade a

principal propriedade desse sistema, é de se supor que as formas de “pontuação do como”

estabelecidas pelos terapeutas sejam fundamentalmente intervenções criativas e exclusivas a

cada ajustamento vivido. Ainda assim, podemos encontrar no livro de fundação da abordagem

uma reflexão sobre o sentido ético de algumas formas de ajustamento e de intervenção

estabelecidos em regime clínico – e que podem pautar aquelas inventadas por nós mesmos a

cada nova sessão.

85

5.1 – CONTATO INICIAL E CONFIGURAÇÃO DO CAMPO CLÍNICO

A “apresentação” dos consulentes é uma ocorrência de extrema relevância para o

gestalt-terapeuta. Afinal, já nesse “contato inicial” o terapeuta pode perceber - em função do

lugar que é ou não convidado a ocupar - a presença das funções de self ou o

comprometimento de alguma delas.

Evidentemente, essas funções e respectivos comprometimentos não são ocorrências

“visíveis”. O que se mostra de modo visível são alguns cerimoniais, alguns comportamentos

socialmente sancionados, especialmente pela “cultura” psicoterapêutica, como por exemplo:

as posturas sedutoras (“ouvi dizer que o doutor é...” ou “não acredito em psicoterapia...”), as

posturas desafiadoras (“o que o doutor sabe sobre isso?”), posturas exibicionistas (“já fiz seis

anos de análise...” ou “tenho algo horrível para lhe dizer...”), as auto-vitimizações (“não sei se

posso pagar o valor de sua sessão...”) dentre outros infinitos expedientes, os quais sempre

carregam, como sua dimensão invisível, um “apelo” a nossa participação. Ou, então, somos

surpreendidos pela total ausência de apelos, como se o consulente não tivesse consulta a fazer,

como se não tivéssemos nada a lhe oferecer. Nossa presença para ele é tão contingente quanto

à do quadro pendurado na parede. Ou, ainda, deparamo-nos com consulentes, sobretudo

usuários da rede pública ou dos serviços substitutivos de saúde, os quais, não obstante

tentarem apelar por nossa intervenção, comportam-se como se não soubessem fazê-lo, como

se lhes faltassem aqueles expedientes socialmente sancionados.

De toda sorte, essas formas “visíveis” de apresentação geram um “efeito invisível” em

nós mesmos (como terapeutas). Somos convocados a ocupar um lugar em um “campo” pelo

qual não deliberamos. E quanto mais cedo nos deixamos conduzir a esse lugar, mais

rapidamente vislumbramos, como a um “outro” com quem, ainda assim, não podemos

coincidir: i) tentativas criativas de aniquilação ou disfarce de excitamentos ansiogênicos, ii)

tentativas de preenchimento ou articulação de excitamentos que não são sentidos como se

fossem próprios, iii) buscas desesperadas por dados que não estão disponíveis. Quanto mais

cedo nos deixamos conduzir a esses lugares para os quais estamos sendo convocados, mais

rapidamente percebemos o tipo de ajustamento que os consulentes estão tentando estabelecer

e, por conseqüência, qual função de contato em cada qual está comprometida. Por outras

palavras: a percepção das funções comprometidas, dos ajustamentos estabelecidos, da

satisfação possível alcançada por cada consulente, tudo isso passa pela capacidade que nós

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terapeutas devemos ter de nos deixar descentrar. Ou, ainda, a percepção desses “invisíveis”

tem relação, para nós terapeutas, com nossa passividade ao campo.

No caso dos consulentes em quem testemunhamos buscas desesperadas por dados que

não estão disponíveis, se os dados realmente não estiverem disponíveis (por exemplo, um

pouco de alimento que pudesse ser oferecido a um desempregado subnutrido, em crise de

hipoglicemia, encaminhado ao psicólogo de um posto de saúde), a função de ego neles não

poderá ser desenvolvida. Conseqüentemente, o contato não poderá acontecer e nada poderá

ser assimilado, nem mesmo uma identidade objetiva, base constitutiva da função

personalidade. É provável que estejamos diante de um ajustamento aflitivo. Não é nosso

objetivo, por ora, dissertar sobre os ajustamentos aflitivos e sobre a as formas de intervenção

gestáltica nesses casos.

Se pudermos, entretanto, observar junto aos consulentes uma função de ego

desempenhando uma ação qualquer, é preciso atentar para qual lugar essa ação nos reserva

(enquanto terapeutas). Ou essa ação acontece à revelia de nossa presença no campo; o que não

significa que, em alguns momentos, não possamos ser convocados a atuar como “figurantes”,

meros colaboradores dos reais protagonistas da ação, precisamente: as funções de ego que

estejam fazendo um ajustamento psicótico (como no caso daqueles consulentes que tentam

preencher ou articular excitamentos que eles próprios não demonstram sentir como seus). Ou,

então, essa ação nos implica diretamente como agentes “co-adjuvantes”, como se a função de

ego nesse campo dependesse de nossa participação efetiva – caso em que, provavelmente

estaremos envolvidos em um ajustamento neurótico. Esse é caso daqueles consulentes que,

para aplacar a ansiedade decorrente de um excitamento que eles próprios estejam a inibir de

maneira inconsciente, “apelam” por nossa intervenção direta, “apelam” para que assumamos

uma determinada função em favor da aniquilação da ansiedade por eles sentida: “ídolos” a

quem eles possam imitar na esperança de preencherem o vazio ansiogênico que os afeta;

“mestres” que os ensinem a suportar uma ansiedade que não pode ser mais ignorada; “réus”

em quem reconheçam a causa da ansiedade que os atinge; “cuidadores” de quem esperam um

linimento que, enfim, abrande a ansiedade que os torna vítimas; “admiradores” em quem

encontram confirmação para continuar adiando a realização do excitamento ansiogênico.

No caso dos ajustamentos neuróticos, os únicos que nos interessam por ora, os apelos

dirigidos ao terapeuta estão freqüentemente relacionados às diversas formas de interrupção da

expansão da ansiedade pelas etapas do processo de contato. O apelo é ele mesmo a ação da

inibição reprimida, que assim tenta pulverizar a ansiedade decorrente das ameaças de

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deflagração do excitamento inibido desencadeadas pela situação clínica. Ou, então, o apelo é

a própria realização social da inibição reprimida em regime clínico. Não se trata, ao menos

nas primeiras sessões, de um ataque ao terapeuta, mas de uma tentativa de inclusão deste. O

terapeuta é requisitado a participar dos ajustamentos neuróticos desempenhados pelo

consulente. Ele é convidado a ajudar o consulente no trabalho de produção de um sintoma, o

qual mais não é que a própria interrupção do excitamento ansiogênico nas diversas etapas do

processo de contato. Quando o consulente dirige ao terapeuta o apelo “seja meu mestre” é à

presença da ansiedade no momento do “pré-contato” que se trata de aplacar. Caso exercesse a

função de mestre, o terapeuta estaria corroborando um ajustamento introjetivo. Quando dirige

ao terapeuta o apelo “seja meu réu” é à presença da ansiedade no momento do “contatando”

que o consulente tenta dissipar. O terapeuta que assumisse essa função estaria ratificando um

ajustamento projetivo. Também o apelo “seja meu cuidador” diz respeito ao momento do

“contatando”. Mas, agora, o terapeuta é convocado a validar a retroflexão que o consulente

imputa a si mesmo, também com o propósito de aniquilar a ansiedade. No caso de o apelo ao

terapeuta ser “seja meu fã”, o consulente está tentando implicar o clínico em um ajustamento

egotista. Caso validasse às múltiplas formas de controle que o consulente tenta exercer sobre

sua própria vida, o terapeuta pouparia o consulente de ter de enfrentar a ansiedade implicada

no “contato final”. O apelo “seja meu ídolo”, a sua vez, é uma tentativa do consulente de

empenhar o terapeuta no trabalho de dissolução da ansiedade advinda do fato de não haver,

para o próprio consulente, um excitamento disponível; haja vista a inibição reprimida ter

interrompido a assimilação do excitamento no momento do “pós-contato”. O consulente tenta

preencher esse vazio incorporando algo que ele solicita do próprio terapeuta. Caso fornecesse

esse modelo, o terapeuta estaria ratificando um ajustamento confluente.

Mas, uma vez atingido pelo apelo que se configura no campo, uma vez descentrado no

ajustamento que é para ele algo inopinado, o gestalt-terapeuta começa a perceber um modo de

funcionamento nas mais das vezes ignorado pelo consulente. Se esse descentramento se

produzir mais de uma vez, o gestalt-terapeuta terá então atingido, mais além do “assunto”, da

“queixa”, enfim, das “personalidades” promulgadas pelo consulente, a vigência de uma

ansiedade, de um excitamento inibido, o qual se presume associado a uma forma específica de

inibição. O gestalt-terapeuta terá atingido a vigência de algo “outro”. Trata-se de algo “outro”

não apenas para o terapeuta, mas, também, para o próprio consulente. Razão pela qual, não

cabe ao terapeuta identificar o excitamento inibido, ou a origem da inibição apresentada,

tampouco exigir que o consulente o faça. Ao gestalt-terapeuta somente interessa pontuar, no

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curso da própria sessão, o momento exato em que esse “estranho” esteja se repetindo, o

momento preciso em que ele torne a se produzir. Tal pontuação concorrerá para uma eventual

implicação do consulente em seu próprio ajustamento. O campo clínico estará configurado.

Uma figura “estranha”, “outra”, estará sinalizada. O que dará início à terapia, ao trabalho não

do terapeuta, mas do consulente.

5.2 – O CONTRATO TERAPÊUTICO

A pontuação estabelecida pelo terapeuta relativamente ao momento em que ele mesmo

é surpreendido pela repetição de um inesperado, no aqui/agora da sessão, é a pedra

fundamental de todo e qualquer processo de intervenção gestáltico nos ajustamentos

neuróticos. Essa pontuação pode acontecer em qualquer momento da primeira sessão, ou

depois de transcorridas muitas sessões. O importante é que o gestalt-terapeuta se deixe afetar

por tal inesperado, no momento em que ele estiver se repetindo, porquanto ele é o “objeto”

específico a partir do qual poderá propor, ao consulente, um contrato terapêutico.

No caso da clínica dos ajustamentos neuróticos, não interessa ao gestalt-terapeuta dar

conta dos assuntos ou problemas formulados pelo consulente em termos de queixa; ainda que,

no início, antes do estabelecimento do contrato, o consulente possa esperar soluções para os

problemas corriqueiros que esteja a formular. Mas, tão logo se estabeleça um ajustamento de

evitação que o surpreenda, o gestalt-terapeuta tem a ocasião ética de esclarecer, enfim, qual é

o “objeto” da clínica gestáltica dos ajustamentos neuróticos, precisamente: a pontuação das

“formas” (gestalten) de evitação, nas quais, por obra do próprio consulente, o terapeuta foi

envolvido. Evidentemente, o gestalt-terapeuta vai se servir dos próprios elementos discursivos

e comportamentais fornecidos pelo consulente para pontuar a eventual manifestação de uma

forma de evitação. Ainda assim, deixará claro que a questão clínica pela qual o consulente

pagará não diz respeito às representações objetivas produzidas por este; diz respeito sim à

manifestação de algo espontâneo, surpreendente, que foge ao controle das representações

deliberadas estabelecidas seja pelo terapeuta seja pelo consulente.

Mais do que isso, o gestalt-terapeuta esforçar-se-á para mostrar que tais formas não

existem em um lugar prévio ou iminente, como se fossem conteúdos a serem descobertos ou

buscados. Ao contrário, ao gestalt-terapeuta cabe esclarecer que o objeto da terapia gestáltica

(a saber, o ajustamento neurótico) é uma ocorrência atual, imanente ao aqui/agora da sessão, o

que não significa que não inclua vivências passadas e expectativas futuras. Afinal, o

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aqui/agora é para o gestalt-terapeuta um campo de presença; e os horizontes de futuro e de

passado são desse campo dimensões co-participantes. Rigorosamente falando, o aqui/agora é

a maneira pela qual se dá o “contato” entre nossos horizontes de passado e futuro. É a própria

realização desse contato, que não é senão uma síntese de passagem apoiada em um dado

material atual. A sessão terapêutica é esse dado, uma oportunidade para o consulente se

apropriar do modo como ele vive essa passagem entre um passado imutável e novas

possibilidades futuras. E o ajustamento neurótico, a sua vez, é ele mesmo o “objeto” da

experiência terapêutica: um dos modos possíveis de “evitação” daquela passagem, de

interrupção do contato temporal.

A noção de aqui/agora como campo de presença fundamenta, ademais, uma leitura

gestáltica do que seja o tempo da sessão. Do ponto de vista da experiência de contato, o tempo

da sessão não diz respeito ao relógio, ao cronômetro, mas à configuração de uma síntese de

passagem, por cujo meio se revele uma “gestalt”, no caso em questão, uma forma habitual de

inibição dos próprios excitamentos. O tempo de uma sessão é, portanto, o tempo de revelação

de uma “gestalt” em que há interrupção inconsciente de um excitamento. Tal pode levar

segundos, como pode não acontecer por meses a fio. Isso não significa que o gestalt-terapeuta

tenha de abandonar o relógio. A forma de trabalho de Perls (1973, p. 106), nesse particular,

ajuda-nos a elaborar uma compreensão sobre a forma de utilização do tempo cronológico em

benefício da manifestação do tempo do contato (tempo vivido). Em seus trabalhos de

demonstração (workshops) – os quais mais não eram que “terapias individuais em contextos

de grupo”, Perls (1973, p. 105) não cronometrava os atendimentos. Quando muito, atinha-se a

um limite máximo, que variava de grupo para grupo e também em função do número de

participantes em cada grupo. Mas, tão logo uma forma de ajustamento evitativo fosse flagrada

e dela o participante se apercebesse, o atendimento era encerrado. Às vezes isso levava

minutos ou menos do que isso. Razão pela qual, é freqüente os gestalt-terapeutas contratarem,

com seus consulentes, sessões que tenham um teto cronológico máximo, o qual pode ser

muito variado. Mas o estabelecimento desse teto não implica que ele deva ser cumprido.

Implica apenas que, a cada sessão, terapeuta e consulente disponham de até ‘X’ minutos para

pontuarem o surgimento de um inesperado, pontuarem a configuração de um ajustamento

evitativo. Qualquer um dos dois pode fazer essa pontuação. E quando ela estiver estabelecida,

é hora de fechar a sessão, mesmo que o teto cronológico não tenha sido atingido. A

continuidade da sessão não agregaria mais do que um falatório irrelevante, não raro devotado

a solapar as conquistas da sessão até aquele momento.

90

Essa forma de entender o tempo da sessão também tem efeito sobre os temas da

assiduidade e do atraso. Resguardado o acordo que possibilite, ao consulente e ao terapeuta,

um tempo confortável de antecedência para cancelamento das sessões, as faltas não

comunicadas constituem sessões realizadas, pelas quais o consulente irá pagar. Afinal,

enquanto uma alta não for solicitada (pelo consulente) ou comunicada (pelo terapeuta), os

“horários” de sessão contratados continuam surtindo efeito no terapeuta. E é dever ético do

terapeuta “devolver” ao consulente esses efeitos para que este os elabore, sobretudo, por meio

do pagamento. O mesmo vale para os atrasos, que devem ser religiosamente descontados do

tempo contratado para cada sessão. Em rigor, um consulente nunca está atrasado para a

sessão. Ele simplesmente “deliberou” usar o tempo da sessão de outra forma; o que, ainda

assim, surte um efeito no terapeuta, ainda assim o faz aguardar... A recíproca, entrementes,

não é verdadeira. O retardo do terapeuta deve ser ressarcido, uma vez que, durante o período

em que estava atrasado, o terapeuta não se ocupava do consulente. Portanto, não é ético que o

terapeuta considere os atrasos que ele próprio provocou terapêuticos. A decisão de como

ocupar o tempo da sessão é prerrogativa exclusiva do consulente – a menos que, antes do fim

da sessão, o terapeuta possa pontuar, no consulente, a manifestação de um ajustamento de

evitação, o qual, vale lembrar, é o objeto da terapia, o “fim” da sessão (na dupla acepção do

termo fim: término e finalidade). Da mesma forma, o intervalo entre as sessões, assim como o

tempo do tratamento não são itens que possam ser, do ponto de vista do tempo vivido,

acordados previamente. A necessidade das sessões, assim como a compreensão do momento

da alta - da conquista da autonomia em relação ao terapeuta - são fenômenos de campo, sobre

os quais o consulente deve deliberar. Exceção para o período de férias ou para a eventualidade

de o terapeuta não se sentir mais disponível para acompanhar o consulente. Afora esses casos,

cabe ao consulente, portanto, aumentar ou espaçar a distância entre as sessões ou decidir pelo

fim do processo terapêutico.

Outro aspecto de suma importância e que diz respeito ao contrato terapêutico é o valor

que o consulente vai pagar por cada sessão. Se o objeto da sessão terapêutica é a emergência

de um ajustamento em que se evita inconscientemente um excitamento, e se essa emergência

tem antes relação com a configuração de um campo no qual o consulente é o principal

protagonista, o pagamento não deve ser relacionado, em primeiro lugar, com os honorários do

profissional, mas com a importância que o consulente dá a seu próprio ajustamento, ao seu

próprio sintoma. Ou, então, o pagamento não deve valorar o terapeuta, mas o quanto de

importância o consulente dá a isso que ele ignorava de si, mas que na sessão veio à tona,

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precisamente: que ele é acometido de uma fisiologia secundária que interfere em sua

regulação organísmica e social. Por conseguinte, é muito importante que, no fechamento do

contrato, o terapeuta vincule o objeto da terapia - precisamente, as formas de evitação que o

consulente imputa a si - e o valor que essas formas possam assumir na vida oficial desse

mesmo consulente. Tal vinculação vem ao encontro de algo que, tão logo o “objeto” do

tratamento tenha sido pontuado e contratado, o consulente passa a admitir de si mesmo, a

saber: que é ele próprio quem estabelece tal “objeto”, que é ele mesmo que interrompe

inconscientemente seus próprios excitamentos. Tal significa dizer que, o consulente “sabe”

que o que vai ser tratado na psicoterapia tem relação consigo – e não com o terapeuta. É isso,

ademais, o que torna o tratamento algo interessante para o consulente. É isso que gera

vínculo. Se ignorasse esse “saber”, o terapeuta estaria correndo o risco de ambicionar maior

importância que aquela que o consulente dá a si próprio.

Evidentemente, para que o consulente possa se apropriar dos próprios ajustamentos

neuróticos, ele precisa contar com a disponibilidade do gestalt-terapeuta, ele precisa contar

com a capacidade do gestalt-terapeuta para se deixar arrebatar, descentrar. O gestalt-terapeuta,

em algum sentido, precisa abrir mão de suas próprias teorias, curiosidades, vaidades, enfim,

personalidades, em proveito das formulações criativas e autônomas desempenhadas pelo

consulente. E é por esse desprendimento que o gestalt-terapeuta “cobra”. Do ponto de vista do

terapeuta, o valor da sessão em verdade paga o quanto o profissional “deixa” o consulente

trabalhar. Gestalt-terapeutas que têm dificuldade para valorar e cobrar seu próprio trabalho

(seja para mais ou para menos) não apenas depreciam ou supervalorizam seu ofício. Eles

também conspiram contra a orientação ética do tratamento. Afinal, se o pagamento remunera

o “quanto de autonomia” os terapeutas asseguram aos seus consulentes, a falta de cobrança ou

a cobrança a menor (ou, em alguns casos, a maior) demarcam a resistência desses terapeutas

em favorecer a “alforria” de seus acompanhados. Ou, ainda, a falta de cobrança ou a cobrança

freqüentemente a menor demarcam o apego dos terapeutas ao lugar de poder a que foram

conduzidos pelo “apelo” dos consulentes. Nesse sentido, é preciso ressaltar que os gestalt-

terapeutas não são representantes oficiais dos consulentes, não são prestadores de serviço, não

foram investidos no lugar de terapeutas pela força dos contratos civis, dos preceitos morais ou

dos códigos de defesa do consumidor. Por conseguinte, não podem cobrar por isso, não

podem cobrar em nome dos contratos estabelecidos no campo da função personalidade. É fato

que os gestalt-terapeutas dão recibos, declaram seus rendimentos ao fisco, prestam

informações não-sigilosas para sua categoria profissional ou para as autoridades civis de sua

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comunidade. Entretanto, essas delegações não são ofícios do gestalt-terapeuta, mas de um

profissional, de uma personalidade à qual o gestalt-terapeuta se identifica, e com a qual

precisa se identificar para poder atuar numa determinada comunidade objetiva. Mas não é

algo com que o gestalt-terapeuta deva operar quando efetivamente se ocupa do consulente.

Dar recibos, preencher formulários, prontuários e etc. não é prática terapêutica. É exercício de

uma personalidade, de uma função personalidade, a qual não é objeto da visada ética da

clínica gestáltica dos ajustamentos neuróticos. A ética dessa clínica diz respeito ao que se

mostra como “estranho”, como “outro”, diz respeito àquilo que está fora do alcance do

gestalt-terapeuta. Conseqüentemente, o gestalt-terapeuta não tem nada a fazer por esse

estranho, tampouco a cobrar. Ele só pode cobrar por sua diligência em não atender aos apelos

desse estranho, depois de tê-los ouvido e não obstante continuar a ouvi-los. Da mesma forma,

o consulente não é um “cliente”, que paga por um serviço. Menos ainda um “paciente”,

assujeitado a um saber médico, psicológico, jurídico, filosófico... O consulente é quem

consulta, consulta a si mesmo em um campo onde o interlocutor, assim denominado “gestalt-

terapeuta”, permite àquele aperceber-se, tomar posse de seu próprio fluxo de awareness, ou

do modo como o interrompe.

5.3 – DIAGNOSE E INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA

Para Perls, Hefferline e Goodman, “(a) diagnose e a terapia são o mesmo processo”

(1951, p.250). Afinal, se é a partir do lugar que somos (ou não) convidados a ocupar no

“apelo” do consulente que identificamos ajustamentos aflitivos, psicóticos ou neuróticos,

porquanto ocupar (ou não) aquele lugar é um ato “clínico” (um descentrar-se ante o que faz

derivar), toda identificação diagnóstica implica intervenção terapêutica. Mas no que

exatamente intervimos? Quais lugares, precisamente, passamos (ou não) a ocupar?

Do fato de distinguirmos entre três gêneros fundamentais de ajustamento disfuncional

não se segue que acreditemos que eles sejam estruturas totalmente incomunicáveis. É verdade

que cada ajustamento descreve o comprometimento de uma determinada função do self. Mas,

assim como as funções são sempre funções num só campo, denominado sistema self, os

comprometimentos estão a sua vez articulados entre si, de modo a constituírem um sistema

único. O que significa dizer ser possível observarmos, num mesmo consulente, em momentos

diferentes de uma mesma sessão, os três tipos de ajustamentos disfuncionais de que se ocupa

a Gestalt-terapia. Um consulente pode, numa mesma sessão: chegar aflito (carente de um

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