Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte
A carreira de Krishnamurti, única na história de todos os líderes espirituais que já por esta
Terra passaram, faz lembrar a do famoso épico de Gilgamesh tal a forma como procurou
modificar o nosso viver. Tendo recorrido a uma linguagem reveladora e despida de artifícios que
penetrava os pontos obscuros da filosofia e nos restaurava as fontes da acção, ao mesmo tempo
que nivelava as superestruturas da nossa ginástica verbal, Krishnamurti legou-nos uma
mensagem de Amor e Paz sem, todavia, advogar quaisquer ilusões. As análises a que procedia
eram elaboradas sob a acção de aguçados instrumentos da lógica e da inteligência, o que nem
sempre as tornava fáceis de entender.
Jamais apresentou soluções fáceis mas, ao invés,
provocava e exortava as audiências a ponderar de forma implacável sobre as causas dos nossos
problemas, sempre com o objectivo de transformar o homem, libertando-o, para o efeito.
Certos autores confessam que ele era dotado de uma natureza ingénua e era bastante
sugestionável à manipulação por parte de terceiros. Possuía uma qualidade bastante infantil,
contudo, no que tocava às questões fundamentais, a extensão dessa manipulação era limitada,
mostrando-se inamovível. Krishnamurti trabalhou toda a sua vida a fim de libertar o homem, sem
jamais procurar qualquer vantagem ou benefício pessoal. Em boa verdade se poderá concluir que
foi um indivíduo que realizou a Verdade, tal o modo singular e a magnanimidade com que tratou
as mais diversas vertentes do nosso viver.
Jiddu Krishnamurti nasceu em Madanapale, no sul da Índia, a 12 de Maio de 1895. Durante
mais de sessenta anos, deu conferências por todo o mundo, e entrevistas privadas com milhares
de pessoas de todas as faixas etárias e formação, sempre referindo que, somente através da
mudança completa da mente e do coração dos indivíduos poderá suceder uma mudança na
sociedade e resultar paz para o mundo.
O século que o viu nascer assistiu à eclosão de duas guerras mundiais, à violência contínua no
campo religioso, ético e político, assassínios em massa, numa escala sem precedentes e o
desenvolvimento e a proliferação de armas de destruição maciça, por todo o mundo. De forma
adicional a sobrepopulação, a degradação ambiental e o colapso das instituições sociais
produziram medo e cinismo nas pessoas com relação à sua capacidade de resolverem os
problemas sempre crescentes. Em cada conferência que dava, fazia virtual menção à crise global,
ao mesmo tempo que chamava a atenção das plateias para a gravidade das estruturas psicológicas
que são responsáveis pela criação da violência e da mágoa nas suas vidas.
Ao longo de toda a sua vida Krishnamurti insistiu em referir que não queria seguidores:
“Seguir alguém constitui um mal danoso”, dizia, “não importa de quem se trate”. Jamais criou
qualquer organização de discípulos ou crentes e tampouco aderiu ou autorizou quem quer que
fosse a tornar-se um intérprete das suas instruções, tendo procurado somente que, após a sua
morte, aqueles que partilhassem das suas preocupações preservassem um registo inviolável das
suas conferências, diálogos e escritos para a posteridade e os tornassem amplamente disponíveis
ao público.
Apesar de se ter exprimido por meio da palavra e da escrita estritamente em inglês, os seus
escritos foram traduzidos para quarenta e sete línguas. Cinquenta das suas obras foram
publicadas durante o seu tempo de vida. Durante várias décadas os seus textos circularam
subrepticiamente por certos países de regime totalitário, mas após a década dos noventa, por
altura do derrube do muro de Berlim, foram empreendidos esforços para a publicação do seu
trabalho na Rússia, na Polónia e na Roménia. Estima-se que, nos seus pronunciamentos ele se
tenha endereçado a mais pessoas do que alguma outra figura na história registada. Por mais de
seis décadas, as audiências variavam comummente entre os milhares, especialmente nas
sobrelotadas cidades indianas e em Ojai, na Califórnia, onde o clima ameno permitia
ajuntamentos fora de portas, numa plateia praticamente isenta de limites de lugares sentados. Os
auditórios e salas de concertos das áreas metropolitanas do Pacífico em que proferiu palestras,
eram frequentemente lotadas em toda a extensão da sua capacidade, assim como as enormes
tendas que acolhiam aproximadamente duas mil pessoas durante os encontros anuais de verão, na
Suíça e Inglaterra. Além disso, encontrava-se frequentemente com pequenos grupos, que iam de
uma a duas vintenas de pessoas. Mas, como ele mesmo certa vez referiu: “Mesmo que apenas
duas pessoas se encontrem para dialogar com toda a seriedade, elas poderão mover montanhas”.
A despeito de uma vida publica bastante activa, K era bastante tímido e cortês. Desde os seus
anos de moço, sempre repudiou todas as tentativas elaboradas para o retractar como um
indivíduo excepcional. Em 1929 retirou-se do convívio de quantos pretendiam criar uma
atmosfera mística ao seu redor e em redor do seu trabalho, referindo que: “ Não desejo que
aqueles que buscam compreender o que digo me sigam, mas que sejam livres; não pretendo que
se crie ao meu redor uma nova prisão que por sua vez se torne uma nova seita ou religião”.
Dois anos antes da sua morte, numa altura em que o interrogavam acerca da importância da sua
própria vida, respondeu: “Importará de algum modo que o mundo comente a pessoa de K como
excelente? Quem se importará com isso? Deveis beber a água do jarro e não adorá-lo. Todavia, o
homem adora o vaso e esquece a água.”
Devido ao carácter primacial das questões que colocava, pensava ele ser de primordial
importância que aqueles que se interessassem em questioná-las junto com ele, encetassem a
investigação com um propósito correcto, e lembrava as suas audiências que não procurava
convencê-las de coisa nenhuma, nem se impunha como instrutor.
Certa vez descreveu a abordagem que empregava, do seguinte modo: “Travemos um diálogo
entre dois amigos que nutrem certa afeição um pelo outro, um mútuo sentimento de interesse,
sem procurarem trair-se mutuamente mas explorar os pontos de vista de interesse comum. Assim
trata-se de uma conversa amigável com profundo sentido de comunicação, aqui sentados à
sombra desta árvore, nesta encantadora manhã, com a relva cheia de orvalho, numa conversa a
respeito das complexidades da vida.”
K. encontrava-se com frequência com um pequeno grupo de amigos a fim de debaterem os
problemas do dia-a-dia e penetrar os problemas da existência. Tais grupos eram, na maior parte
das vezes compostos de professores, estudantes e pais que se associavam às escolas que ele
ajudou a erguer, e por vezes incluíam cientistas, psicólogos e eruditos. Ele não estabelecia
qualquer critério quanto à frequência nesses debates. Os participantes activos numa única cessão
por vezes variavam desde figuras internacionalmente conhecidas até empregados de limpeza, ali
dos locais de acolhimento.
Jamais utilizava o pronome pessoal “eu”, tanto em privado como em público. Nas conferências
que dava geralmente apresentava-se como “o orador”, e nos diálogos que sustentava com outras
personagens era vulgar substituir o nome próprio por “K”, ou muito simplesmente “X”, ao
referir-se à sua pessoa. Não se tratava de pose mas de um convite endereçado a quantos o
escutavam para que se envolvessem numa investigação completamente impessoal sobre a
existência humana, sem considerar as suas palavras como opiniões autoritárias ou conclusões
subjectivas. Pelas mesmas razão, ele quase invariavelmente abordava quantos se envolviam no
diálogo com ele, por “senhor” ou “madame”, até mesmo, por vezes, participantes que eram seus
amigos de longa data..
Durante o período dos anos vinte e trinta, as transcrições das suas conferências eram feitas por
meio do uso de estenógrafos profissionais, que transcreviam palavra a palavra todo o conteúdo, e
K. habitualmente mantinha registos , não só das conferências como das entrevistas com aqueles
que o procuravam. No começo de 49 as conferências passaram a ser gravadas como registo
comprovativo, e já pelo final da sua vida, era frequente ser filmado duas ou três vezes ao dia, à
medida que mantinha encontros com amigos ou estudantes, ou até mesmo professores, após uma
conferência pública. A primeira gravação feita em fita de vídeo foi feita em 68 e a partir daí as
suas conferências eram gravadas nesse formato, do mesmo modo que muitos diálogos com
grupos menores.
K. era comummente interrogado com relação àqueles que afirmavam ser intérpretes ou
professores no campo daquilo que ensinava. Três meses apenas antes da sua morte teve ocasião
de reiterar que tais indivíduos não possuem autoridade alguma que legitime as suas pretensões, e
muito menos de serem seus seguidores. Além do mais K. deixou bem claro que aqueles que
nutriam admiração –não pelas suas palavras, mas pelo estilo de vida que apontavam, deveriam
naturalmente partilhar as suas descobertas com os demais, do mesmo modo que fariam com
relação a qualquer outra coisa que os sensibilizasse: “Diante da contemplação dessas colinas, da
extraordinária tranquilidade da manhã, a forma dos montes, dos vales, as sombras, a forma bem
proporcionada com que tudo se apresenta – ao perceberdes tudo isso não escrevereis a um amigo
a convidá-lo para vir contemplar tal espectáculo? Não estareis preocupados convosco mas
unicamente com a beleza dos montes”.
Com relação às fundações que criou, e à autoridade, referiu que não detinham qualquer
autoridade sobre a vida das pessoas – no que respeita ao que devem ou não deixar de fazer, nem
sequer para referir ser o centro a partir do que tudo deve emanar, à semelhança de uma estação
de rádio ou de televisão. Aquilo que dizemos é que com as fundações criamos algo que é original
e digno de atenção. Utilizem o tempo de que necessitarem a fim de o compreender. E se não
sentirem qualquer interesse, então descartem-no, que isso não faz a menor diferença.
Krishnamurti discursou, tanto em privado como em público, com certo número de figuras de
destaque mundial, e a maior parte dessas entrevistas acham-se disponíveis para o público em
geral, tanto sob a forma de vídeos como em fitas de áudio e livros. Entre os personagens que
mantiveram entrevistas com ele encontram-se primeiros ministros da Índia como Indira Gandhi,
Nehru, Ragiv Gandhi, o eminente físico Dr. David Bohm, novelistas como Aldous Huxley, Iris
Murdoch e Cristopher Isherwood; o psicólogo Ira Progoff, o educador Ivan Illich, o biólogo
Rupert Sheldrake, o Dr. Jonas Salk o famoso descobridor da vacina da poliomielite e Chugyam
Trungpa Rimpoche o tibetano que proferiu palestras. A única vez que ele apareceu em público
numa larga escala foi numa emissão de um programa americano intitulado “O jovem Indiana
Jones”.
K mantinha com inflexibilidade e firmeza que no processo de aprendizagem psicológica não
ode existir nenhum mestre. Cada um deverá inquirir sozinho sobre a beleza e complexidade da
vida e tornar-se livre para descobrir o amor. No entanto, todo esse vasto corpo de registos chegou
a ser intitulado como “instruções” – termo esse a que ele próprio não se opunha, apesar de se
poder albergar um sentido grandiloquente. Quando interrogado com respeito a isso, K descreveu
a forma como sucedeu, nume discussão mantida com amigos: “Pensamos em utilizar o termo
“trabalho”, mas como pensei que pudesse transmitir um sentido bastante vulgar pensamos dever
utilizar o outro “ensinamentos”, porém, o termo em si não possui qualquer importância. Depende
de vós viverem ou não esses ensinamentos”.
Sempre que possível, e quando tal se disponibilizava, K proferia as palestras ao ar livre. Todas as
primaveras dava conferências por entre o arvoredo de carvalhos na vila rural de Ojai, Califórnia.,
de forma que as gravações desses encontros estão cheios, não somente registam a sua voz e as
questões colocadas pela audiência, mas também de canto de aves. Nos meses de inverno que
passava na Índia, era frequente fazer menção à majestosa aparição da lua diante de audiências de
milhares de pessoas, novos e velhos, que se juntavam ao entardecer a fim de o escutar, nos
jardins públicos, tanto em Madras como em Bombaim. K chegou mesmo a fazer apontamentos
ao ar livre, como é o caso do notável “Educação e Sentido da Vida”, escrito em 53, esboçado
num simples caderno de apontamentos durante um curto período de três dias, achando-se sentado
à sombra de uma árvore.
À medida que se deslocava de um país para outro ele vestia-se consoante os costumes locais,
tanto por questão de cortesia, como devido a que não desejasse atrair as atenções sobre si. Desse
modo, uma vez na Índia ele envergava uma kurta e pyjama ou um churidar, e era vulgar trazer
consigo um imenso guarda-chuva para se abrigar do sol durante os passeios do entardecer. Uma
vez no ocidente, envergava fatos confeccionados em Londres. Na Califórnia vestia-se de modo
asseado mas casual, evidenciando preferência pelos jeans, camisas de colarinho desabotoado e
sapatilhas.
Por vezes k procurava ilustrar certos aspectos do que referia partilhando uma ou outra anedota
com a audiência que o escutava. Mas entre os seus escritos mais populares destaca-se a série de
apontamentos distribuída pelos três volumes, feita de transcrições de entrevistas, entituladas
“Comentários Sobre o Viver”. Ao longo deles k explora a complexidade da vida junto de
indivíduos que o visitavam na Califórnia, na Europa e na Índia, ou que o abordavam no
aeroporto ou então na gare do comboio. Os seus interlocutores anónimos eram políticos,
estudantes, viúvas, homens de negócios, maridos e esposas, professores, monges e artistas-
pessoas de todos os sectores do viver, de todas as idades, credos religiosos e nacionalidades. K
mantinha uma agenda cheia no que tocava a marcações privadas e entrevistas, chegando mesmo
a dispensar mais de trinta ao dia. Fosse na Índia ou na Califórnia, na Suíça ou na Inglaterra, ele
encontrava-se com os visitantes à varanda ou davam longos passeios enquanto discutiam as
intricâncias da vida, a par com a contemplação da paisagem e do pôr do sol, escutar o ruído do
rio, etc. Era frequente deter-se por momentos a contemplar um ou outra flor em pleno
desabrochar ou então, dependendo do local onde se encontrassem, costumava chamar a atenção
para as brincadeiras dos esquilos e dos macacos, o voo dos papagaios e até das águias. Noutras
ocasiões, aqueles que o visitavam escolhiam não falar, permanecendo antes em silêncio,
tomando-lhe uma mão entre as suas.
Nos anos trinta conheceu Aldous Huxley e tornou-se amigo desse escritor notável de
nacionalidade inglesa a residir na Califórnia. Juntos, partilharam longas conversas e almoços
sobre religião e o futuro da humanidade; foi mesmo Huxley quem o encorajou a publicar os
“Comentários Sobre o Viver” por achar a mistura de descrição de paisagens naturais com
questões filosóficas singular. Huxley escreveu a introdução à publicação da “Primeira e Última
Liberdade”, publicado em 54, no qual declara que os leitores descobririam nos escritos e nas
conferências de K pronunciamentos claros e actuais sobre o problema humano fundamental.
Certa vez uma criança perguntou-lhe se dispensava conferências por questão de passatempo e
por que razão o fazia, se não se cansava de tanto falar. K congratulou-se por ela lhe ter colocado
tal pergunta e respondeu-lhe que quando gostamos do que fazemos- referindo-se ao amor que
não visa obtenção de resultados nem contrapartidas- então não se trata de questão de auto-
preenchimento e assim não resulta nenhum desapontamento nem objectivo: “Porque razão faço o
que faço? Bem que poderia perguntar porque razão floresce a rosa ou dá o jasmim aroma, ou os
pássaros voam. Vejam, eu até já tentei deixar de falar para ver o que sucedia; mas dá no mesmo,
entende? Se falamos por que isso nos possibilita determinada coisa- seja dinheiro ou uma
recompensa, sentido próprio de importância, isso provoca uma sobrecarga e torna-se destrutivo e
seguramente deixa de fazer sentido por se tratar de mera forma de auto-preenchimento. Porém,
se sentirmos amor no coração e ele não se achar repleto com as coisas da mente então isso será
como uma fonte ou nascente a jorrar continuamente água fresca.
Quando era novo K frequentou uma escola na Índia onde recorda ter sofrido agressões por ser
incapaz de aprender as lições. Filho de um funcionário público que vivia numa propriedade
adquirida pela Sociedade Teosófica da Índia, foi levado aos quinze anos para Inglaterra onde
recebeu uma educação privada. Em 29 teve a iniciativa de criar uma escola residencial em Rishi
Valley, movido pela preocupação por que as crianças fossem ensinadas sem pressões, de modo a
que pudessem entrar na vida adulta livres dos efeitos de deformação da tradição e do medo. Em
anos subsequentes, auxiliou a estabelecer cinco novas escolas na Índia. Em 68 juntou-se a outros
pares, num esforço para criar a escola de Brockwood Park e, de novo em 75 a escola americana
de Oak Grove. Sobre as escolas que fundou, ao longo de mais de seis décadas, disse: “O
propósito, a intenção, o vigor destas escolas destina-se a equipar a criança com uma proficiência
mais excelente para que possa exercer funções com clareza e eficiência no mundo moderno e,
além disso, o que importa muitíssimo mais, possibilitar a criação do meio correcto para que se
possa desenvolver completamente enquanto ser humano”.
Até ao final dos seus dias K esteve sempre profundamente envolvido no trabalho dessas
escolas, que amiúde visitava a fim de estabelecer diálogos com estudantes e alunos. Além disso
escreveu dúzias de cartas ao pessoal dessas escolas manifestando um vívido interesse por que
essas escolas não se tornassem meros empreendimentos académicos mas lugares onde tanto
estudantes como professores pudessem aprender com relação “à totalidade, à inteireza da vida”.
No final da vida preocupou-se por que indivíduos de maturidade e sério empenho que
revelassem interesse pelo seu trabalho pudessem dispor de um local para estudar e reflectir,
longe das pressões do emprego e da família. Para satisfazer essa necessidade, pediu às fundações
para criarem locais de retiro e centros de estudo perto dos locais onde haviam implantado as
escolas que ajudara a fundar. Actualmente, existem seis desses centros de retiro na Índia, um em
Inglaterra e outro na anterior residência de K, em Ojai, Califórnia. K tinha a esperança de que
aqueles que visitassem esses centros de retiro, situados como estão numa atmosfera de sossego e
beleza natural, pudessem gozar da oportunidade de investigar profundamente os ensinamentos e
ir ao encontro de quantos fossem capazes de travar diálogos livres com respeito aos seus mútuos
interesses. “Os centros de estudo devem ser um local destinado a todas as pessoas interessadas,
que se tenham descartado das noções de nacionalidade, crença sectária e outras coisas que
dividem os seres humanos.
Pessoalmente K rejeitou todas as formas tradicionais de meditação, tanto na forma como é
praticada no oriente como adaptada pelo ocidente, e respondia a quem quer que o interrogasse
que considerava todos os sistemas que a mente é capaz de impor sobre si mesma, como
perigosos e insensatos. Frequentemente declarava ser importante que ficássemos sós em sossego
em qualquer altura do dia, de forma a dar descanso à mente, mas adiantava logo que nem mesmo
isso deveria ser feito como rotina. Referindo-se ao que chamou “meditação autêntica” devotou
conferências inteiras ao tema, a fim de esclarecer a subtileza do seu significado.
O tipo favorito de prática que sustentava era caminhar, mas além disso observava certas posturas
e exercícios da yoga a fim de ser capaz de proporcionar alguma flexibilidade aos músculos, mas
jamais aderiu a qualquer tipo de disciplina rígida por questão de rotina, antes referindo que,
quando se sentia fatigado permitia que o corpo repousasse sem o forçar. A certa altura, em
Inglaterra, demonstrou alguns exercícios respiratórios da yoga, mas sugeriu imediatamente que
os fizessem apenas pela diversão. Ele não via qualquer outro valor na yoga como, por exemplo,
um meio para a compreensão da mente.
Em 84 decidiu-se pelo processo de gravação em fita, de forma preservar um diário. As
observações que fez em “Krishnamurti to Himself” versam de um modo livre sobre os tópicos
mais variados, como a permanente beleza da terra, a imoralidade do acto de matar animais, a
naturalidade da morte, a necessidade urgente de mudança e o sentimento urgente da meditação.
Por essa altura recomendava que devíamos realmente esquecer-nos do termo “meditação”.
“É um facto bastante extraordinário que aquele rapaz” ( K referindo-se a si mesmo no
passado) não tenha sido corrompido. “Eles (os teosofistas) tudo fizeram para procurar
dominar-me.”
“O estado de abstracção (vazio interior) jamais se desvaneceu. Ainda esta manhã no
dentista, durante as quatro horas que lá passei, nem um único pensamento sobreveio à minha
mente. Fiquei espantado. Isso comprovou como esse estado de abstracção prevalece desde
aquela altura e até ao presente, com oitenta e poucos anos, sempre alberguei uma mente
assim. Que coisa fará com que isso aconteça assim? (...) A mente deste indivíduo permaneceu
constantemente ausente desde a infância até ao presente. Porque razão não sucede isso com
os demais? Isso deve ser passível de suceder a qualquer um. Caso contrário, que sentido
teria?”
“Quando acontece a mente ausentar-se desse modo, ela só toma conhecimento do facto
posteriormente. Quando se torna necessário usar o pensamento para fins de comunicação ela
fá-lo, de outra forma permanece vazia. Durante o seminário- enquanto estou a falar esse
estado revela-se. Não se trata de ter qualquer visão ou assim, simplesmente resulta
naturalmente, sem qualquer intervenção por parte do meu raciocínio. À medida que irrompe
torna-se lógico, racional. Mas se acontecer de eu me por a pensar nisso com zelo ou escrever o
que se processa no seu decurso, ou sequer procurar repetir a experiência, não sucede
absolutamente nada.”
“Querem saber qual é o meu segredo?” Krishnamurti fez uma pausa para logo a seguir
dizer, num tão de voz suave e tímido: “Vejam bem, eu não me importo com o que possa
acontecer.”
Excertos
A Questão da Honestidade
1985
Oxalá fossemos honestos connosco próprios. A honestidade, assim como a humildade, é da
maior importância. A humildade cultivada pelo homem respeitável torna-se de todo em todo
fútil pois faz parte da vaidade. Mas a humildade nada tem que ver com a vaidade nem com o
orgulho. Trata-se do estado de espírito que diz: "eu não sei mas vamos investigar", sem dizer
jamais- "eu sei".(...)
A nossa vida é fragmentada; isso é um facto. O nosso modo de pensar é bastante
fragmentado. Tornamo-nos homens de negócios e ganhamos rios de dinheiro e aí então
vamos e tratamos de construir um templo ou fazemos donativos para a caridade. Vejam a
contradição disso. Jamais somos honestos connosco, verdadeiramente honestos. Não no
sentido de sermos diferentes ou compreendermos outra coisa qualquer mas no sentido de
sermos inquestionavelmente lúcidos e possuirmos um sentido absoluto de honestidade, o que
implica não termos ilusões.
Se você contou uma mentira, contou uma mentira!- e tendo consciência disso diz: "aquilo
que referi é mentira"; não tenta encobri-la. Quando se sente furioso, está furioso- não
apresenta causas nem explicações para o facto.(...)
Para penetrarmos de modo profundo a questão de saber se a vida possuirá algum sentido-
sem rejeitarmos os aspectos externos da forma, da acção, das responsabilidades, da vida do
dia-a-dia –para podermos investigar tais níveis requer-se que possuamos uma tremenda
honestidade. Não a honestidade de nos conformarmos a um princípio ou a uma ideia,
alguma convenção ou padrão estabelecido por nós mesmos, porque isso não é honestidade,
absolutamente.
O pensamento pode enganar-se facilmente criando uma ilusão, e pensar que isso seja
honestidade.
Por certo a honestidade está em ver exactamente "o que é" sem distorção nenhuma, não só
externamente mas interiormente igualmente- ver exactamente o que somos, tanto ao nível
consciente como nos níveis mais profundos.
A honestidade está em ver que- se mentimos, trata-se simplesmente de uma mentira- somente
isso, sem qualquer engano, justificação, encobrimento ou fuga. Quando se possui tal clareza,
quando se possui uma qualidade de percepção assim, então somos inocentes. E só então,
penso eu, se poderá começar a compreender o que é o amor.(...)
Portanto, para podermos falar disso- o que naturalmente é bastante difícil, penso que
devemos possuir bastante clareza verbal e compreender também o processo não verbal por
detrás disso, a própria estrutura disso. Ou seja, deve existir em nós esse extraordinário
sentido de clareza e honestidade, o que inevitavelmente produzirá uma certa qualidade de
inocência, e então talvez possamos inquirir sobre esta palavra- todavia inquirir livremente,
com grande hesitação.(...)
Necessitamos possuir um grande sentido de honestidade para descobrirmos por nós
próprios o que é o amor, para chegarmos à sua beleza e à sua inocência, sem o que a vida não
possuirá sentido completamente nenhum.(...)
Desse modo, tanto a honestidade como a inocência, ou essa coisa chamada amor, devem
constituir a fundação para a meditação porque, de outro modo esta tornar-se-á um escape,
uma bagatela, um meio de auto-hipnose. Mas seguramente isso não é meditação.
Para podermos meditar necessitamos de tremenda inteligência e sensibilidade- a inteligência
que procede do auto-conhecimento, a compreensão de nós mesmos que procede do
conhecimento completo de si próprio. É essencial olharmos para nós mesmos com enorme
clareza e sentido de honestidade, de modo que não subsista nenhuma possibilidade de
decepção.
Quando a mente for completamente honesta pode chegar a ser verdadeiramente inocente.
Este conhecer a si mesmo produz essa sensibilidade que representa uma enorme
inteligência, que não pode ser obtida numa universidade nem adquirida por meio dos livros.
Não necessitais ler um único livro sobre filosofia ou psicologia- tudo está em vós.
Somente quando tivermos esta clareza de conhecimento e compreensão de nós próprios-
tanto no nível consciente como nos níveis mais profundamente obscuros, o que em parte
perfaz o processo da meditação- poderá a mente, assim arrumada e livre, avançar para
coisas que jamais poderão ser postas em palavras e jamais comunicadas a outra pessoa.(...)
Como já dissemos, a simplicidade implica ser honesto de modo que não resulte nenhuma
contradição em si mesmo. E quando subsiste um tal estado, passa, então, a existir verdadeira
simplicidade.
Brockwood Park 1969
A questão da honestidade é muito complexa. Com relação ao quê deveremos nós ser
honestos? E porque razão? Não poderemos ser honestos connosco próprios, sendo desse
modo justos com os demais?
Quando dizemos para connosco que se deve ser honesto- será isso possível? Será a
honestidade simplesmente uma questão de ideais? Poderá alguma vez o idealista ser honesto?
Ele vive num futuro cavado sobre o passado, preso que está entre isso que foi e aquilo que
deve ser, de modo que nunca poderá ser honesto.
Podereis ser honestos para convosco próprios? Será isso possível?
Vós achais-vos no centro de vários tipos de acção, por vezes contraditória, no centro de
vários pensamentos, sensações e desejos, que sempre estão numa oposição conjunta. O que é
que é desejo ou pensamento honesto e o que é que não é? Não se trata aqui de uma mera
questão de retórica nem esperteza de argumentação. É muito importante descobrir o que
significa ser completamente honesto porque vamos tratar da questão do insight e da urgência
da acção.
Se percebermos a profundeza do insight deverá ser de todo importante que tenhamos esta
qualidade de completa integridade em todas as coisas que constitui a honestidade...
Podemos ser honestos com relação a um ideal, a um princípio ou a uma crença enraizada,
mas com toda a certeza isso não é honestidade.
Só poderá haver honestidade quando não houver conflito algum de dualidade, quando não
subsistirem contrários...
Desse modo a honestidade não é o contrário da desonestidade. Podemos ser sinceros nas
nossas concepções ou crenças, porém, essa sinceridade gera conflito, e onde houver conflito
não pode haver honestidade. Assim perguntamos se poderemos ser honestos para connosco
próprios.
"Nós" somos uma mistura de muitos movimentos que se cruzam e dominam mas que
raramente fluem juntos. Quando todos esses movimentos fluírem de forma conjunta então
haverá honestidade.
Existe a separação entre o consciente e o inconsciente, o bom e o mau- o pensamento
produziu esta divisão; e existe o conflito que se dá entre essas divisões. Mas a bondade não
possui contrário.(...)
Com esta nova compreensão daquilo em que a honestidade consiste poderemos prosseguir
com a investigação do que seja o insight? Isso é totalmente importante porque pode bem ser
o factor que irá revolucionar a nossa capacidade de acção e produzir uma transformação no
próprio cérebro.
Dissemos que o nosso modo de vida se tornou mecanicista; o passado, com toda a
experiência acumulada, forma o conhecimento; conhecimento que por sua vez é a fonte do
pensamento- que dirige e molda toda a acção.
O passado e o futuro estão inter-relacionados e são inseparáveis; o próprio processo do
pensar baseia-se nisso. O pensamento é sempre limitado e finito; ainda que pretenda
alcançar o céu, esse céu enquadra-se somente na moldura do pensamento.
A memória, da mesma forma que o tempo, é perfeitamente mensurável. Esse movimento
do pensamento nunca poderá ser viçoso, renovado, original. Desse modo, a acção baseada no
pensamento deve ser sempre cindida, incompleta e contraditória. Todo esse movimento do
pensamento deve ser profundamente compreendido na relativa posição que assume diante
das necessidades da vida e das coisas que devem ser recordadas. O que será, então essa acção
que não é a continuidade da recordação? O insight.(...)
O insight (percepção intuitiva) não é a cuidada dedução do pensamento, o processo
analítico do pensamento nem a natureza temporal da memória. É percepção destituída
daquele que percebe. É percepção instantânea. A acção ocorre deste insight. A partir deste
insight a explicação para qualquer problema torna-se exacta, determinante e verdadeira.
Não há arrependimento nem reacção; é uma coisa absoluta. Mas não pode haver insight sem
essa qualidade do amor. O insight não é uma questão intelectual que possa ser argumentada
e patenteada.
Esse amor é a mais elevada forma de sensibilidade- justamente quando todos os sentidos
desabrocham em conjunto. Sem essa sensibilidade- que não para com os nossos desejos,
problemas ou questões pessoais- obviamente o insight será francamente impossível.
O insight é uma coisa una; uno implica o todo, a totalidade da mente. A mente é toda a
experiência da humanidade, o vasto conhecimento acumulado com as suas habilidades
técnicas, as suas tristezas, ansiedade, dor, pena e solidão. Porém o insight está para lá de tudo
isto. E para que o insight ocorra é essencial que sejamos livres da tristeza, da pena e da
solidão. O insight não é um movimento contínuo e como tal não pode ser capturado pelo
pensamento.
O insight é a inteligência suprema e essa inteligência utiliza o pensamento como um
instrumento. O insight com toda a sua beleza e amor constitui a inteligência; esses aspectos
são verdadeiramente inseparáveis e, na realidade perfazem um só; isso é tudo o que há de
mais sagrado.(...)
Pergunto-me se alguma vez chegamos a colocar a questão de podermos viver uma vida
plena, uma vida honesta e de verdade.(...)
Em que consiste a integridade? A integridade está relacionada com a honestidade e é a
qualidade do cérebro ou da nossa existência de ser completa, una e não fragmentada...
Não uma coisa qualquer que concebemos como verdadeira- 'concebemos', deduzimos como
verdadeiro, de acordo com o que passamos a viver.
Isso é um modo de vida fragmentado porquanto o pensamento inventou um conceito, um
ideal, alguma coisa de acordo com o que vivemos, o que depois produz fragmentação.
Concebemos uma dada coisa como verdadeira, lógica, sã; concebemos a ideia e procuramos
viver de acordo com ela, não é? Naturalmente isso produz fragmentação, dicotomia; vós
concebestes algo como verdadeiro- imaginaste-o, experimentaste-o- e depois procurastes
viver de acordo com isso, o que nada tem que ver com o facto actual. E dessa forma resulta
sempre esta fragmentação contínua nas nossas vidas.
E em parte isso produz desonestidade. O idealista é realmente um homem bastante
desonesto- desculpem-me por o referir nestes moldes- porque ele vive de acordo com um
modo de vida preconcebido quando diz: "Devo viver de acordo com esse padrão"; o que nada
tem que ver com a vida diária, de modo que isso gera conflito.
Isso produz hipocrisia. Assim, será possível vivermos neste mundo com uma honestidade e
integridade totais, e um sentido de fazer o correcto intimamente- não externamente mas sim
interiormente- e ver que o nosso comportamento e conduta, o nosso modo de pensar seja
completamente livre de ilusões e não seja dependente de um conceito imaginário qualquer
nem pessoa alguma, etc.? Isso requer uma tremenda honestidade- não dizer nunca uma coisa
que não corresponda á verdade em si mesma!
A questão do que seja verdadeiro para nós próprios é bastante difícil também, porque se
pode dizer que: "a minha opinião corresponde à verdade". Mas se vivermos de acordo com as
nossas opiniões- necessariamente em conflito com os outros, que por seu turno podem
possuir opiniões fortemente enraizadas- então viveremos em guerra permanente, não será?
Isso são tudo factos diários.
E será possível possuir uma tal clareza de percepção das coisas exactamente tal como elas
são- não de acordo com os nossos desejos, vontade e todo o mais- e possuir um cérebro assim
dotado de clareza, lógica, um cérebro são, que não seja persuadido por desejos pessoais,
motivos nem dependência? (...)
Desse modo, a integridade a honestidade e o sentido da totalidade são uma qualidade do
cérebro no qual não há movimento, excepto o próprio ritmo de que o cérebro dispõe. Mas
provavelmente isto não passa de grego. Mas é uma questão muito séria porque estamos
sempre a agir às voltas, em círculo. E nunca rompemos esse círculo; este constante girar ao
redor não só torna o cérebro bastante entorpecido como gera também um modo de vida
bastante mecanizado. E um modo de vida assim não pode ser honesto mas só repetitivo.
Desse modo, descobrir o que seja essa honestidade inabalável e absolutamente duradoura,
que perfaz a integridade e a totalidade, equivale a descobrir um estado do cérebro em que
não subsiste movimento nenhum. Mas é claro, isso faz parte da meditação.
Esse não movimento possui uma acção própria na vida; para nós agir é fazer alguma coisa
ou alcançar algo, satisfazer determinada coisa- o que constitui um movimento direccionado
do centro para a periferia. Não sei se estão a seguir tudo isto. Desejaria que estivessem. Não é
que eu esteja a ajudá-los; isso seria terrível, mas, se pudéssemos trabalhar juntos e tentar
perceber o que estou a referir, isso produziria uma fundamental mudança radical.
O que significa a honestidade? Poderemos possuir honestidade, ou seja, a clareza do
insight, vendo as coisas como elas são- quando possuímos um princípio, um ideal, uma
fórmula enobrecida? Poderemos ser directos se estivermos confusos? Poderá haver beleza se
essa beleza ou honradez assentar num modelo?
Quando existe essa divisão entre aquilo que é e aquilo que devia ser, poderá existir
honestidade- ou tratar-se-á somente de uma desonestidade edificante e respeitável?
Nós somos criados entre ambos os aspectos duais- entre o que na realidade é e aquilo que
pode ser. No espaço existente entre estes dois aspectos, nesse intervalo de tempo e espaço,
situa-se toda a nossa educação, toda a nossa moralidade e esforço. Olhamos de forma
distraída uma ou a outra, com um olhar ora de temor ora de esperança. Mas poderá haver
honestidade e sinceridade neste estado a que a sociedade chama educação?
Quando dizemos que somos desonestos queremos essencialmente dizer que há uma
comparação entre aquilo que dissemos e aquilo que é. Dissemos alguma coisa que não
queríamos dizer, talvez de modo a dar um ar de garantia à coisa, ou então por nos acharmos
nervosos, tímidos ou envergonhados, algo que era verdade. E desse modo o estado de
apreensão e o medo tornam-nos desonestos.
Quando vamos no encalço do sucesso devemos ser de algum modo desonestos, pois fingimos
que somos algo, e somos astutos e enganadores, de forma a alcançar os nossos fins. Ou então
ganhamos autoridade ou alcançamos determinada posição que passamos a defender. E
assim, toda essa resistência e toda essa defesa constituem uma forma de desonestidade.
Ser honesto significa não possuir qualquer ilusão com relação a nós próprios nem vestígio
nenhum de ilusão como aquele em que assentam o desejo e o prazer.(...)
No desejo sempre subsiste o factor "melhor", o "maior", o mais. No desejo existe a medida,
a comparação- mas a comparação é a raiz da ilusão. O bom não é o melhor, mas nós fazemos
depender toda a nossa vida pela busca desse "melhor"- seja o melhor quarto de banho ou a
melhor posição, ou a divindade melhor. E o descontentamento com o que é produz a
mudança- o que não passa da continuidade não comprovada daquilo que é.
Melhoramento não é mudança, mas este constante esforço por melhorar, tanto a nós
próprios como a moralidade social, que produz a desonestidade.(...)
Viver sem um princípio, sem um ideal, equivale a fazer face àquilo que é, a cada minuto.
O confronto real com o que é- que implica um contacto total com o facto, ao invés de
procurar esse contacto através da palavra ou das associações do passado, recordações etc.;
ficar em contacto directo com a coisa - é nisso que consiste ser-se honesto. Saberdes que
mentistes e não apresentar nenhuma desculpa para o facto; ver a realidade disso é
honestidade. E dessa honestidade brota um enorme sentido de beleza.
A beleza não fere ninguém. Dizer que se é um mentiroso é o puro reconhecimento de um
facto; é reconhecer um erro como um erro simplesmente. Porém, procurar justificação,
desculpas ou razões para o facto, isso já é desonestidade. Não significa que nos devamos
tornar insensíveis para connosco próprios mas sim atenciosos. E ser atencioso significa ser
cuidadoso, significa olhar.(...)
Como tudo mais na vida nós dividimos a consciência em consciente e inconsciente; no
artista, no homem de negócios- entendem, e esta divisão, esta fragmentação é induzida pela
nossa cultura, pela nossa educação e tudo o mais. Além disso a questão que o interlocutor
coloca é a seguinte: Existe esta divisão entre o consciente e o inconsciente; o inconsciente com
os seus motivos, a sua herança racial, a sua experiência, etc. – tudo isso. Mas de que modo é
que isso poderá ser exposto á luz da inteligência e da percepção?
Colocais essa questão a vós próprios? E se a colocais fazeis isso exactamente como um
analista que examina o conteúdo- o que, portanto, envolve a divisão, a contradição, o
conflito, a tristeza e tudo o mais? Ou colocareis a questão sem terdes um conhecimento
prévio da resposta? Estão a entender? Porque isso é importante. Colocarão a questão nesses
termos?
Existe todo este conteúdo do inconsciente. E, com toda a seriedade, honestamente, não sei
como expor toda esta estrutura da consciência que está oculta. Não sei mesmo!
Assim pois, quando vos aproximais sem saber como, aprendeis. Porém, se dispuserdes de
algum tipo de conclusão ou opinião- a favor ou contra- ou disserdes que "tal coisa possa, ou
não, ser assim ou assado"- então estareis a abordar a coisa com uma mente que já assumiu a
resposta, o que não é resposta nenhuma. Desse modo, uma mente que diz: "Eu não sei"- o
que corresponde a uma verdade- é honesta. Ela pode saber, de acordo com algum filósofo,
algum psicólogo ou algum analista, mas seguramente esse não se tratará do seu saber relativo
à questão, e sim da sua interpretação disso, da sua tentativa por compreendê-los, e não o
real.
Assim, quando dizeis: "eu não sei" o que é que resta? Compreendestes?
Quando dizeis: "eu não sei", o conteúdo deixa de ter qualquer importância, percebem? Mas
será que percebem mesmo isto, senhores? Porque a mente permanecerá revigorada,
compreendem? E só a mente renovada é que diz: "eu não sei". Desse modo, quando o dizeis
não só verbalmente nem por diversão mas com profundeza de sentido e honestidade, esse
estado da mente que não sabe permanece vazio da sua consciência, do seu conteúdo. Porque é
o saber que perfaz o conteúdo. Vêem? Será que o percebem? (...)
Portanto, a mente não pode nunca presumir o conhecimento; assim, mantém-se sempre
nova, viva, empreendedora, e desse modo não possui ancoradouro nenhum. Somente quando
está ancorada é que forma e colhe opiniões, conclusões e separatividade. Isso é meditação, ou
seja, a meditação consiste em percebermos a verdade a cada segundo e não no final; perceber
o verdadeiro e o falso a cada momento, perceber a verdade de que o conteúdo perfaz a
consciência. Isso é toda a verdade.
Perceber a verdade de que não sabemos como lidar com esta coisa, certo? Esse desconhecer é
a verdade, e portanto o não saber é o estado em que não subsiste conteúdo.
É espantosamente simples! Mas é a isso que opondes objecção pois estais á espera de algo
congregado pela esperteza, algo complicado, e desse modo desaprovais ou vos opondes a ver
alguma coisa extraordinariamente simples, e, consequentemente, algo extraordinariamente
belo.
Estávamos a dizer que devemos ver as coisas em conjunto; observar a confusão do mundo
ao nosso redor em conjunto, o extraordinário perigo para a vida humana que existe por todo
o lado, a forma como as religiões estão por todo o mundo a romper a possibilidade dos seres
humanos se encontrarem.
E diante desta vasta confusão e tristeza, fome, opulência, guerras, qualquer homem
inteligente que possua uma perfeita noção da presente situação do mundo para lá de nós,
deve interrogar-se da possibilidade de cada um de nós chegar a possuir essa qualidade de
bondade.
Na língua inglesa, especialmente na América, estão a usar-se palavras que se tornaram
completamente destituídas de sentido- como segurança, sinceridade - palavras que perderam
o seu completo sentido.
Um indivíduo que procure vender-vos determinado produto parece ser sincero; um maluco
qualquer que nem sabe ser um desequilibrado, pode parecer muito sincero. E aquele que
acredita com todo o vigor em determinadas conclusões, em certas crenças, em Deus e tudo
mais, também parece muito sincero.(...)
Um termo como o da desonestidade já quase perdeu todo o seu sentido, porque quando se
vive num estado totalitário, por exemplo, não se pode ser honesto; temos de ser mentirosos e
desonestos. Nesse caso, se dissermos abertamente aquilo que pensarmos, poderá tornar-se
perigoso. Por isso temos de examinar todas essas palavras e dar-lhes um significado
diferente; como a palavra "amor", que se acha fortemente carregada com toda essa
insensatez sensual, sentimental e romântica. Temos que reexaminar totalmente essas
palavras.
Estamos a utilizar a palavra "bondade" no sentido de que não poderá existir uma sociedade
exterior a menos que cada ser humano seja bastante honesto, e passo a explicar o que quero
dizer com honestidade.
Uma sociedade não poderá permanecer sã se aceitar meramente um estado reprovável
conquanto posa ser aceite externamente; do mesmo modo, um indivíduo assim não poderá,
certamente ser bom nem honesto.
Refiro-me a uma bondade que está para lá do significado da "boa família", da "boa terra",
do "bom livro" ou da "ideia boa".
Assim utilizamos a palavra "bondade" no sentido de os seres humanos poderem ser
completamente honestos, não só exteriormente mas sobretudo interiormente, de forma que
não sejam enganados nem apanhados na ilusão, nem sustentem qualquer crença decadente,
porque tudo isso impede essa qualidade e esse sentido de honestidade profundamente
duradoura. Utilizo o termo honestidade no sentido psicológico de não possuirmos nenhuma
ilusão, fingimento, nem aceitarmos um conceito criado quer pelos outros ou por nós
próprios, pois que se estivermos a viver de acordo com um conceito ou com um ideal, esse
viver será divorciado da realidade e desse modo não poderemos ser honestos nem possuir
essa qualidade de bondade.
A arte de viver é a mais elevada e a mais importante forma de arte - maior que qualquer
outra - seja a da governação ou a da comunicação, mas a despeito de tudo o mais jamais
inquirimos com suficiente profundidade sobre aquilo em que consiste a arte de viver a vida
diária, uma arte que requeira subtileza e sensibilidade, e suficiente liberdade. Porque sem
liberdade não poderemos descobrir em que consiste essa arte de viver, e a arte de viver não é
um método nem um sistema, nem podemos perguntar às outras pessoas de que forma
poderemos encontrá-la mas requer considerável actividade intelectual e uma inabalável
honestidade.
E muito poucos de nós são honestos, condição essa que está a piorar a olhos vistos, por todo o
mundo.
Nós não somos honestos porquanto dizemos uma coisa e fazemos outra; falamos de
filosofia e Deus e todas as teorias inventadas pelos antigos- tudo aquilo em que nos revelamos
bastante bons- porém a palavra não é a coisa, tampouco a descrição, a explicação, o
procedimento.
E é por essa razão que há tanta desonestidade. Assim, inquirir sobre a arte de viver exige
que tenhamos um sentido de honestidade fundamental, inabalável e permanente. É exigido
de nós um enorme sentido de integridade a fim de o descobrirmos- um sentido de
honestidade que não seja corruptível, que não se ajuste meramente ao meio circundante nem
ás suas exigências nem aos vários tipos de desafios, porque estamos a lidar com um problema
amplamente complexo.
Para podermos alcançar a compreensão devemos pôr de parte toda a recusa, aceitação,
juízo e comparação. À medida que nos formos tornando conscientes descobriremos em que
consiste a honestidade, o que é o amor, o que é o medo, a vida simples e o complexo
problema da memória...
A mente incerta e que se acha em contradição não pode conhecer a franqueza nem a
honestidade porque esta exige humildade, mas só poderemos ter humildade quando
tomarmos consciência do próprio estado de contradição e da nossa incerteza.
Se vos encontrardes em busca da verdade então não pertencereis a nenhum ashram nem
utilizareis citações de terceiros; utilizareis as próprias, porém, isso só poderá ocorrer se
fordes honestos de verdade; e essa honestidade só poderá advir se fizerdes experiência
directa disso.
O indivíduo que experimenta e espera obter um resultado, obviamente não está
experimentando.(...)
Para poderdes perceber, deveis possuir o desejo de perceber, deveis sentir um doloroso
anelo pela compreensão, deveis desejar a cura; isso implica que deveis ter suficiente
honestidade para resolver a questão. Todavia vós não sois honestos, mas ansiosos- quereis
que aconteça algo de forma a mudardes e no entanto nem olhais a questão, não procurais
encontrá-la, não a investigais nem vos descobris nela.(...)
A tomada de consciência da ignorância é o começo da franqueza e da honestidade. Já não
possuir essa consciência da ignorância conduz à obstinação e à credulidade.(...)
A mente deve libertar-se do desejo que é a causa da ignorância e da infelicidade,
porquanto é essencial que a mente possua virtude e seja livre da ânsia do querer; é essencial
que detenhamos uma mente completamente franca e honesta e isso procede da humildade. E
uma integridade assim não é uma virtude nem um fim em si mesma mas um subproduto do
pensamento que se liberta por si mesmo do processo do desejo de mais- que se exprime a si
mesmo principalmente na sexualidade ou através da prosperidade mundana, da imoralidade
impessoal e da fama.
A meditação consiste na libertação de toda a desonestidade que a mente empreende.
O pensamento gera desonestidade e depois o mesmo pensamento procura, por si mesmo, ser
honesto, mas como é comparativo é desonesto.
Toda a comparação é um processo de evasão e como tal, produz desonestidade. A
honestidade não é o contrário da desonestidade; a honestidade não é um princípio nem uma
forma de ajustamento a determinado padrão mas, ao invés, a percepção completa
domingo, 10 de outubro de 2010
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