domingo, 17 de outubro de 2010

Aspectos científicos da afetividade



“O pensamento linear-cartesiano tem sido um dos responsáveis pela fragmentação e destruição crescente do ser humano e da natureza, vivenciadas atualmente, por considerar somente o que pode ser medido e quantificado, desqualificando sensações, qualidades, emoções, sentimentos, alma/espírito, ou seja, dividiu a vida ao meio e jogou fora dimensões importantes do ser humano.

Em contraposição a esse modo de ver o mundo, vem sendo desenvolvido o pensamento complexo encontrado em obras de diversos estudiosos como nas do filósofo Edgar Morin1, do físico Fritjof Capra, dos neurocientistas Humberto Maturana e Francisco Varela, e ainda nos estudos de Ilya Prigogine, Herman Haken, Manfred Eigen, James Lovelock e Lynn Margulis e Mandelbrot, para citar apenas alguns, nas áreas da física, da biologia e da matemática.

O pensamento complexo resgata a sensibilidade, as sensações, a qualidade, a subjetividade. Enquanto seres vivos, somos infinitas possibilidades para quem a vivência do aqui-agora é essencial.

Novos paradigmas surgem nesse novo olhar e, dentre eles destacamos o princípio biocêntrico, promovendo uma importante mudança na forma como percebemos, entendemos e agimos. Estamos evoluindo do antropocentrismo para a visão biocêntrica de mundo. Isto quer dizer que a vida é a essência de tudo o que existe - do neutrino ao quasar, da pedra ao pensamento mais sutil. A vida não existe para o ser humano, mas o ser humano existe porque há a vida; o universo existe porque existe a vida, parafraseando Rolando Toro.

(...) Para a dinamização saudável de uma rede relacional das pessoas consigo mesmas, com as outras pessoas e com tudo o que existe, a afetividade emerge como vital ao desenvolvimento e expressão do ser humano em toda sua inteireza, que lhe proporciona qualidade de vida e um novo estilo de viver.

A seguir, abordamos o assunto com base em alguns estudiosos, especialmente em Rolando Toro que esquematizou a importante distinção entre emoção e afetividade.

Estudiosos da neurociência descobriram que as emoções não passam pelo cérebro, não são racionalizadas, sendo a pura expressão física, biológica de nossos instintos. Raiva, medo, alegria e tristeza são emoções básicas do ser humano.

Não se pensa antes da raiva, pensa-se depois, lançando a situação na memória. Por isso é importante conhecer-se para melhor se expressar. Lembrando que tal expressão não é apenas verbal, mas corpórea, do ser como um todo.

As sensações provocadas pelas emoções são puramente físicas que geram comportamentos espontâneos, instintivos e tomadas de decisões rápidas, e, para tanto, são extremamente necessárias. Diante do perigo sentimos uma descarga elétrica em nossos músculos, que nos paralisa.

Em situações que exigem fuga nosso coração acelera, joga-se muita adrenalina na corrente sangüínea que se concentra na periferia corporal, os músculos se preparam, as pupilas se dilatam, dando-nos todo um esquema propício para que iniciemos a fuga. Diante da tristeza, choramos. Da alegria, rimos, gargalhamos.

Estudiosos dessa área ressaltam pessoas que são viciadas em emoções. Por exemplo: alguém que supervaloriza o ato sexual - que está relacionado ao instinto de perpetuação da espécie e da busca do desejo - em detrimento do amor, joga substâncias químicas diretamente na musculatura do organismo relacionadas ao prazer sexual. Com a continuidade desse comportamento essas substâncias acabam produzindo dependência, tornando-se essa pessoa refém do ato sexual.

Temos assim pessoas viciadas em fazer sexo pelo sexo, viciadas em emoções e não em relações. O problema não é apenas de comportamento, ou psicológico. É biológico também. Descargas desproporcionais e contínuas de substâncias químicas no organismo, alteram a homeostase gerando desequilíbrios que originam as doenças.

A afetividade é uma função psicológica que se regula biologicamente pelo sistema límbico-hipotalâmico. Refere-se especificamente ao que se ama, ao que se tem cuidado, e está relacionada à função de registro permanente e evocação da memória, como também, aos valores, à consciência ética e à transcendência ou espiritualidade.

Daí a diferença, por exemplo, entre paixão e amor. A paixão busca a satisfação biológica instintiva enquanto o amor é a expressão relacional saudável de uma afinidade profunda entre dois ou mais seres humanos.

A afetividade implica em relação com o outro, em afinidades profundas, atua biologicamente no ser e resulta da integração córtico-diencefálica. Tem duração (freqüência) no tempo e gera inteligência relacional que se expressa por meio de sentimentos como amor, amizade, empatia, solidariedade, altruísmo, ternura, compaixão.

Estudos recentes concluem que a afetividade é a fonte de todos os tipos de inteligência: cinestésico-corporal, verbal, intrapessoal, interpessoal, lógico-matemática, visual, auditiva, semântica, musical, espacial, social, naturalista, religiosa, etc.”

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